Em Abu Dhabi, Zayed é o cara

Em Abu Dhabi, Zayed é o cara

Em Abu Dhabi, Zayed é o cara

“Nosso pai, Zayed”, exclamam gigantescos outdoors espalhados por toda Abu Dhabi, ilustrados apenas por um homem de barbas negras, olhar penetrante e vestindo kandora, o traje típico dos árabes. Mas quem é Zayed? – perguntam-se boa parte dos ocidentais que chegam na cidade. Bem, Sheik Zayed Bin Sultan Al Nahyan  é talvez um dos mais importantes nomes da política do Oriente Médio contemporâneo. Visionário, quando percebeu que seu território tinha um Himalaia de petróleo enterrado no solo, conclamou os vizinhos  a unirem-se em torno de um só país, que viria a se tornar os Emirados Árabes Unidos.  Ele pagaria todas as contas. E de fato pagou, construindo escolas, estradas, hospitais, que fizeram dos então sete antiquados emirados que toparam a fusão, um dos países mais instigantes do mundo.  Poeta, criado entre beduínos,  ele conduziu seu povo a um avanço sem precedentes e por isso hoje empresta seu nome a avenidas, universidades e mesquitas da cidade. Zayed é a força motora, a inspiração maior que leva Abu Dhabi a preparar-se para um novo e grande salto rumo ao futuro.

O principal objetivo de Abu Dhabi hoje é ombrear-se com Dubai em termos de sedução e atratividade para o turismo internacional.  E se, como dizem, com dinheiro é fácil,  quem vende sozinho 900 milhões de dólares em petróleo por dia (isso mesmo, por dia) não precisa contar tostões para operar grandes mudanças e correr atrás de seus objetivos.  O aeroporto local, que deixa qualquer aeroporto brasileiro no chinelo, recebeu um investimentos de sete bilhões de dólares em sua expansão, prevista para terminar só ano que vem.  Será o principal teatro de operações da Etihad, a companhia área nacional, que pretende movimentar ali 50 milhões de passageiros por ano _ Guarulhos por exemplo tem um movimento de  36 milhões por ano.

Para chegar lá a Etihad preparou diversas novidades. A primeira delas chama-se Residence, um conceito de primeira classe que vai fazer você pensar duas vezes se valem a pena os custos de manter o seu jatinho.  É na prática uma suíte com três cômodos separados, idealizada para uma pessoa ou casal.  O living possui duas largas poltronas de couro, item presente em toda a decoração, mesas separadas e TV de alta definição com tela de 32 polegadas.  Um pequeno corredor leva ao banheiro, amplo e equipado com um confortável chuveiro.  No fundo, um quarto com cama de casal onde pode-se até pedir o café da manhã deitadinho com a pessoa amada.  Entre os serviços tem-se disponível um mordomo 24h, e cardápio cinco estrelas com chef a bordo. No caminho até a classe executiva a nova configuração do avião conta com uma pequena sala de reuniões, com poltronas em círculo e todos  os gadgets tecnológicos necessários para uma reunião de negócios ou uma apresentação.

É claro que ninguém vai a Abu Dhabi apenas pegar um avião, por mais que isso valha a pena. Visitar a cidade é mergulhar num oceano de mármore, mística muçulmana, inovação e sofisticação em um extremo de cair o queixo. E talvez uma das principais novidades que resuma isso tudo  esteja  no projeto da ilha de Saadiyat,. Um antigo deserto de 27 quilômetros de areia é hoje o canteiro de obras de um bairro inteiro que pretende ser a mais perfeita tradução de tudo de melhor que os Emirados Árabes pretendem mostrar ao mundo.

o Louvre em fase de finalização

Até o fechamento deste post, já foram investidos no futuro complexo US$ 27 bilhões para transformar o antigo areal em uma região de altíssimo luxo, com clubes e hotéis classe constelação, e três museus impressionantes: uma filial do Guggenheim com a moderna arquitetura de Frank Ghery em 137 mil metros cúbicos de concreto (a maior instalação do grupo no mundo); uma filial do Louvre de design tão ousado quanto o vizinho e que custou aos Emirados a besteira de 545 milhões de euros só pelo acordo de parceria cultural. No centro do bairro outra jóia da engenharia, o Zayed National Museum, dedicado a história do fundador da nação, terá estruturas de aço semelhantes a penas de falcão _ um símbolo do país _ elevadas a 125 metros do solo.

Somente nas obras da primeira filial do Louvre, que está com 95% das obras prontas e tem inauguração prevista para dezembro, já foi investida a besteira de US$ 1,3 bilhão. O consagrado arquiteto francês Jean Nouvel (que fez também Museu Nacional do Catar e do Museu Nacional de Arte da China) assinou o projeto, que simula um oásis, com o teto vazado como se fosse o espaço entre as folhas de uma árvore. Durante 30 anos os árabes poderão usar a marca e, de lambuja, ainda passaram a contar com a consultoria técnica dos gestores do Louvre para montar um acervo próprio.

Entre 2009 e 2014, o emirado investiu US$ 55 milhões por ano para adquirir obras de arte ao redor do mundo, em um esforço financeiro considerado sem precedentes no mercado contemporâneo de arte. O objetivo é montar uma coleção universal. Cerca de 300 obras foram arrematadas. Entre as peças há um bracelete de ouro, esculpido há 3 mil anos no Irã Antigo; um quadro do holandês Piet Mondrian, que pertencia ao costureiro Yves Saint-Laurent e até uma série de Pablo Picasso que nunca foi exposta. Fica a dúvida sobre como os árabes vão reagir ao se depararem, por exemplo, com quadros renascentistas de mulheres gordinhas com os seios à mostra.

Uma visita distinta aos emirados pressupõe uma hospedagem comme il faut.  E em se tratando de sheiks árabes não existe experiência melhor do que hospedar-se no famoso Emirates Palace. O “sete estrelas” onde na recepção as máquinas vendem barras de ouro em vez de coca-cola e chocolate com amendoim.  Ao contrário do que diz a lenda, ele não foi construído para ser o palácio da família real _ o palácio deles fica pertinho, ocupa um terreno absurdo, mas um muro de cinco metros não deixa ver lá dentro. Mas que parece ter sido parece. O hotel tem um quilômetro de extensão de ponta a ponta, o que significa uma boa caminhada mesmo no café da manhã.

Aqui, onde você olha e vê dourado, é tudo  folheado a ouro mesmo. O hotel conta com oito mil palmeiras (uma parte considerável delas dentro de salões de pé de direito altíssimo),  dois mil candelabros Swarovski, 33 cozinhas e dois mil empregados _ cinco para cada um dos 400 apartamentos.  Por ano o hotel gasta cinco quilos de ouro em pó  decorando doces ou jogando uma pitadinha nos cappuccinos.  A suíte mais impressionante, que durante a visita da nossa reportagem estava supostamente ocupada por Justin Bieber que se apresentava na cidade, custa a bagatela de quinze mil euros em diárias _ mas há opções diversas para os poucos e bons bolsos. É possível também fazer apenas uma visitinha básica nas áreas comuns desse portento.

a entrada exclusiva dos sheiks no Emirates Palace

Mas além do absurdo que é o Emirates, as principais redes hoteleiras do mundo também estão de olho nas mudanças de Abu Dhabi. E nossa reportagem teve a honra de ser a primeira do Brasil, e uma das primeiras do mundo, a visitar as novas instalações do recém-inaugurado Four Seasons Abu Dhabi. O hotel fica na ilha da Maryah, exatamente ao lado do Galleria Mall, o mais sofisticado shopping da cidade, endereço das lojas da principais grifes mundiais.

Debruçado sobre o Golfo Árabe, o hotel conta com 200 apartamentos dos quais 38 são suítes com vista espetacular para o mar. Absolutamente silenciosos e confortáveis, os quartos foram pensados como foco no mercado corporativo. Ou seja, o wi fi é poderoso e há uma quantidade absurda de tomadas e entradas para cabo. A cama segue o padrão Four Seasons onde o hóspede pode escolher entre 3 diferentes texturas. Os banheiros contam com chuveiros estilo spa e amenities Ferragamo.

O Four Seasons possui ainda 2 grandes salões para eventos corporativos com 5 salas de apoio; o Dahlia Spa, com 8 salas de tratamentos; e 6 bares e restaurantes. Aqui não há restrição a venda de bebidas alcoólicas, como costuma acontecer em alguns grandes hotéis da cidade. Por isso, durante o dia, não desperdice a chance de tomar um drink no Eclipse curtindo a vista deslumbrante da piscina localizada no terceiro andar. A noite, a pedida é o Zsa Zsa Bar, todo decorado em preto e branco, e ponto de encontro de executivos do mundo todo e de moças e rapazes horizontalmente acessíveis.

Devidamente hospedado, não perca seu tempo e vá conhecer a principal mesquita de Abu Dhabi, a Sheikh Zayed Grand Mosque, onde descansa hoje nosso já citado personagem.  É uma verdadeira maravilha do mundo moderno, que levou nove anos para ser construída e é a oitava em tamanho no planeta. Trata-se de um gigante de mármore branquíssimo,  projetada para que 40 mil pessoas rezem ao mesmo tempo. Com um detalhe importantíssimo: sete mil no interior da mesquita _  onde predomina um ar condicionado divino e o maior tapete persa do mundo _  e os demais no lado externo,  no qual o mármore do piso é mantido sempre geladíssimo graças a um sistema incrível de água corrente debaixo das placas. Afinal, imagine o que seria encostar a testa em um chão de mármore branco temperado por quase 50 graus de sol o dia inteiro!  Aqui as regras de vestimentas são rígidas. Não se pode fazer poses criativosas  para fotos ou usar roupas curtas, principalmente as mulheres, que podem alugar um traje para poder circular sem problemas. No ano passado, a cantora Rihanna foi posta para fora da mesquita sob alegação de estar tirando fotos de maneira ofensiva e provocativa. Convém não arriscar.

o translumbrante interior da Zayed Grand Mosque

Porque se for para arriscar um pouco, mas só um pouquinho mesmo, e no mais completo conforto possível,  é imperdível fazer um dos safaris no deserto de Abu Dhabi.  Muitas companhias oferecem diferentes pacotes envolvendo o deserto e city tours, como a Hala Abu Dhabi, que no seu Sunset Safari oferece uma divertida experiência beduína. Depois de uma visita a uma imensa fazenda de camelos, onde você verá bichos de todos as cores e tamanhos, começa a melhor parte da brincadeira. A bordo de jipões Toyota estalando de novos você parte para um verdadeiro surfe de dunas pelo deserto vazio. O visual é impressionante, e tudo termina com uma parada em um ponto estratégico para assistir ao pôr do sol em meio ao nada com coisa nenhuma. A vista se perde em uma imensidão de areia sem uma marca de pneu, pata de camelo ou garrafa de água abandonada.

Após o anoitecer você mergulha ainda mais adentro do deserto até chegar a uma imensa tenda onde é servido um jantar _ na verdade um bufezão de comida árabe tradicional, com homus, tabules, kaftas e que tais. Depois de uma tarde fazendo piruetas no deserto, desce que é uma maravilha. Pequenas tendas ao redor do salão oferecem de pinturas de hena a passeios de camelo, passando por um pequeno estúdio onde se pode fazer fotos com as diferentes roupas típicas _ até de burca. E claro, não, falta a boa e velha apresentação de dança do ventre.O melhor momento da noite é quando se apagam todas as luzes das tendas, permitindo aos visitantes curtir as estrelas no meio do deserto, com sua  vista única, distante das luzes das cidades mais próximas.

Opções não faltam em Abu Dhabi. Amantes de formula 1 podem se divertir no Ferrari World, um parque temático sobre o maior de todos os ícones do automobilismo, ou mesmo se hospedar no Yas Viceroy Hotel, primeiro do mundo construído sobre o circuito da F1, cuja pista passa exatamente embaixo do hotel. Pode-se passear no Souk at Central Market, um shopping todo de vidro e madeira projetado pelo badalado Norman Foster, ou mesmo subir nas alturas do Burj Al Marina para um almoço ou jantar no Tiara, o restaurante giratório que proporciona uma vista incrível da cidade. Abu Dhabi é tudo isso. Uma mistura de tradição, sofisticação, e olhar fixo no futuro. O legado que Zayed sempre perseguiu em vida.

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