Veja só que bom que era

Veja só que bom que era

Veja só que bom que era

A Rússia já começou os preparativos para as celebrações pelos 100 anos da Revolução Bolchevique de 1917. Semanas atrás deixou o porto de Kronstadt rumo a uma restauração o famoso cruzador Aurora. A poderosa embarcação garantiu um lugar na História como local do estopim da insurreição, quando, após um motim, seus marinheiros atacaram o Palácio de Inverno – hoje sede do Museu Hermitage. O navio guarda também um causo curioso envolvendo o Brasil. Na festa pelo seus 50 anos, um grupo de estudantes brasileiros que estudava em São Petersburgo foi convidado a participar da cerimônia. Havia, contudo, uma exigência. Cada delegação estrangeira deveria em determinado momento cantar uma canção revolucionária de seu país em homenagem aos velhos camaradas. E assim foi feito. Os chineses cantaram um hino de seu país; os franceses, a Marselhesa. Quando chegou a vez dos brasileiros, a rapaziada arrasou: “Se você fosse sincera / ô ô ô ô / Aurora! / Veja só que bom que era / ô ô ô ô / Aurora!” Transformaram-se assim na sensação da noite, aplaudidos de pé por uma seleta plateia de altos membros do Politburo, que certamente reagiriam de modo diferente se soubessem que a marchinha de Mario Lago e Roberto Roberti contém versos bem pouco socialistas como “um lindo apartamento com porteiro e elevador / e ar-refrigerado para os dias de calor / madame antes do nome, você teria agora / ô ô ô ô / Aurora!”

Causos e histórias como essa você encontra em cada uma das paradas de um dos mais instigantes cruzeiros dos muitos já desbravados pela nossa intrépida reportagem. Durante 11 dias, atravessamos seis países, visitamos alguns dos principais museus do mundo e conhecemos algumas das mais charmosas cidades da Europa a bordo Voyager, um dos mais luxuosos navios da Regent Seven Seas, empresa que ocupa a Santíssima Trindade das melhores do mundo ao lado da Crystal e da Oceania. A embarcação é pequena, para não mais de 600 passageiros, o que é bastante diferente daqueles poleiros flutuantes que balançam quase 5 mil almas mar adentro. A Regent oferece um diferencial: praticamente todas as excursões em terra já estão incluídas no pacote. As exceções óbvias são as alternativas mais exclusivas, como um ou outro passeio de helicóptero ou mesmo um carro de luxo com guia – seu e somente seu – para aqueles menos sociáveis.

O embarque é em Copenhague, cidade do high ao low, que reúne do bicho-grilismo do bairro hippie conhecido como Christiana Free Town à sofisticação do Noma, eleito ano passado o melhor restaurante do mundo (reservas com pelo menos seis meses, ok?). Após a checagem de passaportes e vouchers, os passageiros são convidados a tomar um drinque nos bares e aguardar um sinal do comandante enquanto as malas são levadas para as cabines. Hora de um city tour seguido por um dry martini e um sanduba no Pool Grill, burger bar da piscina que serve lanches rápidos ao longo do dia. O Voyager conta ainda com o Signatures, de comida francesa; o Prime 7, de toques contemporaneos; além do Compass Rose, principal restaurant; e o La Varanda, com um bufê variado e cheio de opções para os apressadinhos. À noite, seu salão abre as portas como Sette Mari at La Varanda, um ítalo-americano de comer rezando que, como o nome sugere, tem nos frutos do mar seus pratos fortes. Não perca o Ciopino, sopa de tomate com lagosta, camarão, peixe e mexilhões, prato inventado pelos italianos de San Francisco, é dos deuses.

Um aviso do comandante indica a hora de ir para as cabines. Praticamente todas seguem o mesmo formato, com varandinha, banheiro amplo com banheira, amenities L’Occitane e uma cama com colchão de penas de ganso da qual muitas vezes é difícil levantar. As suítes principais têm dois quartos, sala enorme e são as únicas, infelizmente para os demais mortais, que contam com o atendimento de mordomos. O serviço de bordo, entretanto, é impecável, tendo saído-se bem mesmo após ser desafiado com pedidos esdrúxulos no meio da madrugada. #larica Após desbravar cada detalhe do quarto vem o treinamento de emergência, um mal necessário em todos os cruzeiros, mas que você pode suportar perscrutando quem entre os tripulantes é “pra valer” e quantos são bailarinos fazendo numerito. É fácil: são os mais bonitos. A primeira noite é al mare, ideal para reservar uma mesa na janela de um dos restaurantes mais exclusivos. O after é garantido em três bares de responsa, sendo que o Horizon Lounge perfeito para aquela foto romântica com bandeirinhas e a espuma do navio ao fundo.

O Museu Hermitage à noite

O Museu Hermitage à noite

São Petersburgo, nossa primeira e única parada de dois dias, muito mais do que estopim de revoluções, é onde você vai ver que luxo russo deixa francês no chinelo. Comece pelo Hermitage, museu que precisaria de um texto muuuuito maior do que este para tentar descrevê-lo. Basta dizer que é um complexo de cinco edifícios, com 3 milhões de peças (das quais apenas 20% em exibição), distribuídas por 1.057 salas e 17 escadarias. Dizem que se uma pessoa observasse cada item por um minuto precisaria de 11 anos para ver tudo. Mas o edifício por si só já é um desbunde. Difícil dizer qual das imensas salas é a mais bela – é um salão maior e mais dourado atrás do outro. Entre os roteiros oferecidos pela Regent estão ainda visitas a dois palácios tão de cair o queixo quanto: o translumbrante e também douradíssimo Palácio de Catarina; e o Peterhof, inacreditável conjunto construído por Pedro, o Grande, considerado a Versalhes russa.

Helsinki, nossa parada seguinte, é daquelas cidades sem graça que você só visita porque está passando ali perto. Já Estocolmo, capital da Suécia e nosso próximo destino, é o endereço do Museu Vasa, uma das principais razões para você arredar pé das mordomias a bordo. Em 1626, a Suécia era uma espécie de macacão da bola azul do Báltico. Mandava na zorra toda, da Polônia à

O Vasa, que deveria ser o maior navio de guerra do mundo

O Vasa, aquele que deveria ser o maior e mais luxuoso navio de guerra do mundo

Dinamarca. O rei Gustavo II resolveu então encomendar ao mestre Henrik Hybertsson, o maior engenheiro naval holandês daqueles tempos, o que seria o maior e mais poderoso navio do mundo. O problema é que mestre Henrik adoeceu e morreu no meio da construção. O que fez sua majestade? Matou no peito e disse: “Deixa comigo que vou terminar eu mesmo, e enche esse treco aí de canhão”. Colocou um assistente do falecido projetista na supervisão dos trabalhos, encomendou 72 canhões de 24 libras e passou a dedicar seus dias a cobrar a data do batismo. E tome de incrementar o brinquedo. Só de estátuas, eram 700, coloridíssimas e de todos os tamanhos. O castelo de popa media 18 metros. Na tarde de 10 de agosto de 1628, toda Estocolmo saiu as ruas para ver o Vasa singrar os canais da cidade pela primeira vez. O navio deixou o dique, avançou alguns metros, abriu as velas, deu uma salva de canhões em homenagem ao rei. De repente, tombou para a esquerda. Recuperou-se, e tombou de novo para a direita. O mar começou a entrar pela boca dos canhões, muito próximos à linha d’água, e numa rapidez impressionante o barco afundou, levando com ele cerca de 50 marinheiros. Mas o que isso tem a ver com nosso cruzeiro? É que, em 1961, o Vasa foi retirado do fundo lama gelada** quase intacto, e hoje você pode visitá-lo e até tocá-lo no extraordinário museu que leva seu nome.

 

Na sequência do cruzeiro, você pode fazer uma opção ideológica. Aproveitar a parada na Lituânia e, depois de uma hora de carro, visitar a antiga base de mísseis nucleares soviéticos de onde saíram as armas que deflagraram a crise com Cuba em 1961. Ou descansar de toda a andança pelos palácios e museus, curtindo a programação do navio, que é entregue toda noite na sua cabine no jornalzinho Passages, ou pode ser conferida na programação da TV que inclui informações sobre os destinos, transmissão das palestras promovidas todos os dias sobre aspectos culturais dos países visitados até o cardápio de bordo.

Docas de Gdansk

Vista do Centro Histórico de Gdansk

E se durante sua vida, toda a referência da Polônia era o Papa João Paulo II ou o Lech Walesa, Gdansk será a mais grata surpresa da viagem. A cidade foi arrasada na Segunda Guerra, mas sua reconstrução preservou o charme do passado. Dá vontade ficar mais tempo por aqui, mas o navio precisa fazer ainda uma parada em Malmo, na Suécia, para conheceremos um arrojado programa de recuperação urbana do governo local antes de chegarmos finalmente a Amsterdã. Não olhe a balança. Aproveite o tempo que resta para pelo menos tentar começar a recuperação desses dias de fartura e bebelança. Você pode ter lido e esquecido, mas o Voyager conta com uma academia ampla, de equipamentos modernos e aulas coletivas oferecidas o tempo todo. Pode-se contratar também um personal-babá para ajudar a espantar o bicho-preguiça. Na volta para casa, fica a frase do escritor chinês Lin Yutang, uma das muitas que vêm toda noite em um dos chocolatinhos sobre a cama de sua cabine: “Ninguém percebe quão bonito é viajar, até chegar em casa e descansar a cabeça em seu velho travesseiro”.

 

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