A  trepidante equipe de reportagem de Jabuticaba irrompeu pelos Estados Unidos para uma aventura mais do que especial. Estamos atravessando o país em uma incrível viagem no famoso California Zephyr, trem que liga a Costas Leste a Oeste, cruzando estados como Utah, Nevada e Kansas. E  você poderá acompanhar por aqui nosso diário, com histórias em cidades como San Francisco, Denver, Chicago e Washington. Vem com a gente.


DIA 1

Nunca confie em fotos de site de hotel. Retratistas são excepcionais para fazer qualquer muquifo infecto parecer um Four Seasons. O quarto fica espaçoso, a decoração parece estalar de nova. Eu já estava careca de saber disso, mas como resistir àquela dica de um hotelzinho “charmoso e barato” bem no coração de Castro, o famoso distrito gay de San Francisco. Mas o Twin Peaks hotel estava longe de merecer tais elogios.

Cheguei em San Francisco quase meia-noite depois de um dia inteiro viajando pela famigerada Copa Airlines _ a American Airlines do Caribe. Comparo aqui com a companhia mericana pela qualidade dos serviços oferecidos, ou seja, uma grande porcaria. Fora o avião com cabine de configuração mais do que ultrapassada e tripulantes arrogantes e mal humorados que te tratam pior do que numa rodoviária do deusmelivre. Ah, quantas saudades da Eithad!! Exausto, não quis encarar o Bart, sistema de transporte público que liga quase toda a cidade, e pedi um Uber na saída do aeroporto. O trajeto não levou meia hora. Até que o motorista me desovou em frente a um predinho vermelho e antigo. Toquei a campainha pra ver se havia alguém na portaria.

De lá de dentro veio um milennial arrastando os croques com cara de quem estava puto porque precisou pausar o GTA. Ele rosna alguma coisa que não entendo mas deduzo que é pra passar o cartão pelo buraco do vidro blindado da recepção que mais parece uma bilheteria de estação de Metrô. “Isso não está legal”, penso. Mas dane-se, não deve ser tão ruim assim. E como tudo o que eu queria da vida naquele momento era um chuveiro quente e uma cama, assinei meu nome sem piscar. O resto da rapaziada veio atrás.

Imagine um cortiço clássico da Lapa, sujo, com cheiro de mofo, e o distinto leitor (a) talvez comece a imaginar do que se tratava. Olhando de fora o predinho era pequeno e simpático. Por dentro, corredores sombrios com paredes de madeira descascada levavam o incauto a quartos apertados, de decoração pra lá de duvidosa e cheio e carpetes que não devem ver o sol desde a mais tenra infância do “Bom, já é tarde. Vamos dormir logo hoje e amanhã pensamos um plano B”, imaginei. Troquei de roupa e quando deitei….nossa! O futum que veio dos lenços e do travesseiro era assustador. Só conseguia lembrar de uma história dum parceiro que foi certa vez a Angola e me contou que o lugar era ótimo “fora os vírus da Aids que você mata na chinelada quando eles começam a subir a parede do quarto”, contou rindo.

Não havia a menor condição de passar uma noite sequer ali. Quanto mais as três do plano original. Procurei duas opções no Booking (ambas lotadas) e resolvi ir à luta na rua mesmo. Quase uma da matina me joguei num típico motel americano, cujo quarto parecia ter sido esterilizado perto daquele do Twin Peaks. O desgraçado do gerente ainda quis me cobrar as diárias. Quase sair briga, mas consegui convencê-lo a me liberar do pagamento.

Com isso tudo acabei dormindo megatarde e acordando cedo. Por volta das 9h já estava filmando pelas ruas do Castro. O primeiro e mais famoso bairro gay do planeta é cheio de bares e cafés e facilmente identificado pela quantidade de bandeiras com as cores do arco-íris que são vistas por todos os lados. Meu objetivo era filmar alguns dos points famosos da vida de Harvey Milk, o primeiro político assumidamente gay a se eleger nos Estados Unidos. Milk, cuja história pode ser vista no filme homônimo que deu um Oscar a Sean Penn pela interpretação do protagonista, foi eleito no fim dos anos 70 um dos “supervisores” da cidade, cargo mais ou menos semelhante a um dos nossos vereadores (réplicas da camiseta da campanha são um must buy da viagem). Há retratos dele por toda a parte e o lugar onde costumava fazer seus discursos foi transformado em uma praça que leva seu nome. Milk foi assassinado por um político rival e até hoje a pracinha tem coroas de flores e velas acesas em sua homenagem.

Visitei o LGBT Museum, que conta a história do movimento gay americano e, logicamente, de Harvey Milk. Apesar de já ter sido descrito como o “queer smithsonian”, o museu é minúsculo, e se não fosse a lojinha, não valeria a visita. Mas eu tinha uma lista de pedidos de parceiros para comprar a camiseta “Milk Supervisor” e como os amigos sabem, missão dada é missão cumprida. Tomei um café na Twin Peaks Tavern, o primeiro bar gay a funcionar de janelas abertas em Castro e parti para o que acabou sendo o grande programa do dia: conhecer o Moma de San Francisco.

Maior museu de arte moderna do mundo, o MOMA de San Francisco se espalha por sete andares. Um de seus maiores destaques é a Fischer Collection, uma das maiores coleções privadas do mundo. São mais de mil peças de nomes como Roy Liechenstein, Alexander Calder, Richard Serra e Andy Wahrol, que começaram a ser adquiridas pela família Fisher, fundadora da marca GAP, nos anos 70 para decorar os escritórios. Também me chamou a atenção uma instalação de Céleste Boursier-Mougenot que consistia em uma espécie de laguinho cheio de bowls de louça que pareciam estar tocando música quando esbarravam uns nos outros. Passei a tarde inteira no museu e saí pensando em voltar antes de ir embora. Claro que passei na lojinha para comprar mais uma camiseta e mais um imã de geladeira de museu (a coleção está tão grande que já estou precisando de uma geladeira maior). Fã de meias coloridas, achei o máximo a coleção com desenhos de Van Gogh, Frida Kahlo e Picasso, entre outros. Não, não meias com desenhos inspirados nestes artistas. Os desenhos são os próprios artistas. Mais kitsch e irresistível, impossível. De lá voltei andando pro hotel. Segundo o contador do Apple Watch caminhei hoje 16km. Estou morto. Tico não fala mais Teco. Mas amanhã tem mais.


DIA 2

Acordei cedo para bater perna em Haight & Ashbury, o bairro que virou point doa hippies de San Francisco no fim dos anos 60 . A grosso modo o “Haight” (como a galera o chama) não difere muito dos demais bairros residenciais da cidade, com ruas arborizadas e casinhas vitorianas.   A diferença óbvia é a quantidade de lojinhas de produtos tibetanos, indianos, incensos e todas os tipos de roupas tie dye que sua imaginação puder conceber. Peace and love, man!

Entre os points mais visitados por aqui estão a Amoeba Music e casa onde viveu a banda Grateful Dead no auge da contracultura. O lugar foi palco de gravações e causos sem fim, como a coletiva de 1967 na qual a banda defendeu a liberação da maconha alegando que se fumar um fosse motivo para prender alguém em San Francisco, metade da população da cidade deveria estar na cadeia. Já a Amoeba é um paraíso para qualquer amantes de música. Considerada a maior loja de música independente dos Estados Unidos. São cerca de 1,6 mil metros quadrados de CDs, vinis, cassetes, posters e traquitanas nerds como jogos, bonecos e demais itens colecionáveis. É programa para um dia inteiro garimpando raridades.

A loja possui também um disputado Centro de Avalição para uso de Maconha Medicinal, onde por cerca de US$ 40 qualquer um pode adquirir a carteirinha que permite comprar maconha nas lojas da cidade. Fuma-se maconha pela ruas de San Francisco como se as pessoas estivessem fumando Marlboro. Curiosamente, a erva ainda não está totalmente legalizada no estado. Somente no ano que vem cairá a exigência dessa ridícula carteirinha que, como se vê, ninguém tem problema nenhum pra tirar.

De lá peguei o metrô (bilhete a US$ 2,75) até o cais onde pretendia almoçar antes de fazer o passeio a Alcatraz. Aproveitei para conhecer a colônia de leões marinhos do Pier 39 no Fisherman’s Wharf, uma das grandes atrações da cidade, repleto de restaurantes e lojinhas pega-turista-otário. No caso, o otário sou eu mesmo, que resolvi comer um fish and chips caro e gorduroso enquanto me divertia com as brincadeiras dos bichos. Sabe-se lá porque, dezenas de leões marinhos ocuparam parte das docas logo após o terremoto que sacudiu a cidade em 1989 e nunca mais saíram dali. Quer dizer, em 2010 eles misteriosamente sumiram de novo, mas logo retornaram.

O Fisherman’s Wharf fica a menos de 10 minutos de caminhada do embarque para a “Rocha”, a ilha onde fica o famoso presídio de Alcatraz. Talvez a prisão mais famosa do mundo. Existem vários pacotes com roteiros diferentes para a visita, com preços variando de US$ 40 a US$ 85 e alguns deles precisam ser reservados com muita antecedência devido à procura. Como já perdi a conta de quantas vezes assisti ao filme “A Fuga Impossível”, com Clint Eastwood, que narra a única (supostamente) bem-sucedida tentativa de fuga da prisão escolhi o “Alcatraz behind the scenes tour”, um pouco mais caro, mas que me parecia um programa mais completo.

Alcatraz é impressionante mesmo para quem já esteve em outros presídios (a trabalho, engraçadinhos). A prisão não foi construída para reabilitação, mas para pura e simples punição. Não dá pra fugir dali, mesmo que o Eastwood tenha te convencido do contrário porque o mar é gelado, absolutamente mexido e cheio de correntezas. Dentro do complexo, as celas são minúsculas e haviam algumas delas destinadas a presos que não tinham sequer o direito ao chamado “banho de sol”. Meu roteiro permitia acesso a algumas áreas restritas. Umas interessantes, como a visita as masmorras escavadas no subsolo ou o acesso a algumas galerias de celas usualmente fechadas ao público. Outras porém absolutamente um porre, com o longo tempo dedicado pelo guia a mostrar os canteiros de flores cultivadas pelas famílias dos guardas. Um saco!

No fim do programa o visitante participar de um áudio tour onde, aí sim, você faz uma verdadeira “visita guiada” pelas celas de Al Capone, Frank Morris e os irmãos John e Clarence Anglin (os três últimos os protagonistas da suposta fuga bem sucedida). Algumas estão decoradas com bonecos de cera e itens de época que tornam o passeio mais impactante. No fim do passeio, a “gift store” de Alcatraz é um deleite para quem curte lojinhas de museu. Há de tudo. Réplicas de uniformes, casacos de frio e bonés dos presos; chaves, canecas de metal e camisetas para todos os gostos. Comprei para o Paulo, meu filho, uma do “Alcatraz Swim Team”. Espero que ele curta. Você só precisa ficar ligado no horário que marcar sua visita. É que entre as 16h e 18h40 os barcos que fazem a ligação com o porto não circulam. Daí quando eles retomam as operações é um bando de gente querendo embarcar ao mesmo tempo e não há um lugar minimamente coberto para abrigar todo mundo, ficam todos ao sabor do vento gelado que sopra pela baía.

Saí de lá atrasado para um drink com minha amiga Judith Renzi, jornalista carioca que mora na cidade desde 1999. Marcamos no Mosto, um bar de mezcal que serve aperitivos exóticos, tipo larvas e grilos mexicanos. Mas a idéia, claro, não era comer minhoca, mas circular por Mission District, um antigo bairro latino que está aos poucos gentrificando graças ao dinheiro que jorra do Vale do Silício _ Mission District está “de cara” para a highway que leva às sedes do Faceboook e da Apple, entre outras. Eu adorei o lugar. Por todos os lados há barzinhos super-descolados, lojinhas diferentes. Provei um sorvete feito na hora com nitrogênio líquido e visitamos uma loja de produtos piratas que vende até olhos de vidro (!). Passamos por um bar lotado onde a rapaziada muderna tomava cerveja ouvindo um quarteto de música clássica e terminamos a noite num oyste bar provado um hummus de cenoura dos deuses. Já tinha tomado uns vinhos, então esqueci de anotar os nomes dos dois bares, sorry galera.

Hora de voltar para o hotel. Amanhã cedo é check out e partida para Emerivylle, que fica do outro lado da baía, tipo uma espécie de Niterói local, e de onde finalmente parte o California Zephyr _ o trem que atravessa o país. Me aguardem. Segundo o Apple Watch hoje foram 17km de caminhadas. Acho que se eu parar de tomar vinho, perco finalmente essa pança.

 


DIA 3

Não sei se pela ansiedade, o medo de perder o horário, ou provavelmente um pouco dos dois, mas passei a noite acordando de hora em hora. Castro não está longe da estação da Amtrak em Emerivylle, do outro lado da baía, mas chegar até lá de Muni (o metrô daqui) carregando mala não é coisa para um quase cinquentão. O taxi sairia por US$ 60. Me sugeriram pegar o Muni até perto e de lá um taxi que sairia por uns US$ 25. O mesmo preço cobrado pelo Uber e seu concorrente, o Lyft. Vou de Uber.

Só não contava que ia encarar um motorista hondurenho que ficou uma arara quando viu meu intinerário. Quis cobrar um extra pelo retorno alegando que iria perder pelo menos uma hora no engarrafamento de volta para San Francisco. Ficou tenso. O hondurenho era um negão do meu tamanho, todo bombado, que vestia camiseta branca apertadinha e usava dois enormes braceletes dourados que ele deve ter copiado da Mulher Maravilha. Esquisito, muito esquisito. Mas de taxista malandro e gente marrenta, carioca entende bem. Seguimos viagem em silêncio absoluto, mas no fim paguei apenas os tais US$ 25.

A estação da Amtrak em Emerivylle é simples e funcional. Os funcionários são supreendentemente simpáticos e atenciosos (considerando o padrão médio americano). Cada passageiro tem direito a despachar duas malas de até 23 quilos e carregar duas de mão. Mas teve gente embarcando sem problemas com aquelas mochilas cargueiras enormes. Você tem duas opções de assentos: as coach seats, iguaizinhas às que você já viu em qualquer outro trem. São largas, estofadas em couro, relativamente espaçosas, mas não reclinam totalmente. A alternativa são as roomettes, pequenas cabines com camas que efetivamente reclinam a 180 graus. Eu confesso que esperava uma coisa mais pra “Orient Express”. Mas as cabines são super-simples. Li num blog que o pulo do gato era comprar uma coach seat no “lower level” e foi perfeito. Havia espaço para apenas oito poltronas e só três pessoas viajaram ali numa paz absoluta. No andar de cima, você tem que aturar o vai e vem da galera em direção ao vagao restaurante ou ao lugar onde efetivamente todo mundo tenta passar a viagem: o Sightseer deck, ou o vaga de observação.

Ele fica na parte de cima do trem, tem janelas bem maiores e poltronas voltadas para elas. É preciso chegar cedo para garantir lugar porque quem senta ali não arreda pé tão cedo. E as razões são óbvias. Nesse primeiro trecho entre San Francisco e Denver a minha impressão era de que iria finalmente esgotar esses benditos 256GB da memória do Iphone. As paisagens são incríveis e mudam o tempo todo ao longo do tempo. São florestas de pinheiros, estações de esqui, desertos rochosos com montanhas que parece de ouro quando bate o sol, riachos congelados, cidades que você só imaginava existirem no cinema. Tudo amplo, imenso. Dá vontade de filmar e fotografar quase tudo. Só não dá pra subir esse tudo o tempo todo pras redes sociais porque o California Zephyr não tem wifi e a idéia é que não tenha mesmo. Internet só pra quem tem chip americano e não funciona em vários trechos da viagem.

A proposta aqui é relaxar, curtir a paisagem e trocar idéias com os demais passageiros. No vagão restaurante, por exemplo, você nunca vai comer sozinho. Mesmo que existam mesas vazias, os funcionários vão coloca-lo em algum grupo. Na minha primeira refeição me sentaram com Bessie, que se apresentou como CEO aposentada de uma empresa de seguros, e seu marido Johnn (“o quarto”, contou-me ela) supostamente um ex-engenheiro da Nasa que trabalhou na União Soviética durante a Guerra Fria “ele fala muito pouco, porque foi treinado para não revelar jamais as coisas que fez por lá”, disse-me Bessie. Melhor não contar pra ela que fui petista nos anos 80. Apenas sorri, simpático, a cada nova história. Acho que virei o mascote da turma. A maioria absoluta dos passageiros é formada pela turma da melhor idade, aposentados americanos ou canadenses, que diziam preferir a viagem de trem para poder curtir melhor as paisagens. Mas acho que eles tem mesmo é medo de avião.

Sobre a comida a bordo, bem não é nenhuma maravilha e achei os preços um pouco salgados. Bebidas não-alcoólicas custam US$ 2,25 (seja um copo enorme de chafé ou uma latinha de Coca-Cola). Um hambúrguer no almoço sai a US$ 12,50, com toppings, tipo queijo ou bacon, cobrados à parte (US$ 1 cada). Uma cerveja ou taça de vinho sai por US$ 7. Os pratos mais bacanudos são servidos apenas no jantar. O mais caro é o Land & Sea, um filé com molho bernaise escoltado (gostaram dessa?) por camarões, carne de caranguejo e legumes. Outra opção sugerida é um camarão a biryani _ pra quem não conhece uma receita indiana super-típica _, que custa US$ 23. Para efeitos de comparação, um prato de Cioppino, uma espécie de caldo de frutos do mar com MUITOS frutos do mar, saía a US$ 41 no restaurante Sotto Mare de San Francisco, onde dizem que se faz o melhor cioppino do país. Ah! E lá dava pra dividir.

Hoje por razões óbvias não tem contagem do Apple Watch. Próxima parada é Denver, mas antes ainda vou assistir do trem final da Copa Sul Americana. Os gringos não vão entender nada…rs

 


Dia 4

 

Perdemos o primeiro jogo, mas a luta continua. Mas vamos falar do que importa:

Difícil lembrar agora de alguma outra viagem com tantos cenários diferentes e absolutamente impressionantes transbordando na sua frente. O livro que levei para o sightseer deck ficou intocado e a minha sensação era de que ia passar a viagem toda com o braço levantado filmando tudo o que pintasse pela frente. São florestas de pinheiros no Norte da California e ao longo do estado de Nevada; as impressionantes formações de rocha vermelha, iguaizinhas às do desenho do Papa-Léguas, ao longo do deserto Utah; fora canyons e estações de esqui nas famosas Rocky Mountains. Sim, estou deslumbrado. Porque a gente está tão acostumado a fazer viagens corridas, subindo e descendo de avião, que esquece como é bom apenas sentar e poder deixar o tempo passar, apreciando a paisagem e, assim, conhecendo de verdade um lugar.

No Brasil praticamente não existem mais trens de passageiros. Lembro de visitar uma cidade do interior de Minas Gerais que havia transformado sua linda estação toda construída em estilo inglês, com detalhes em ferro fundido, em um…estacionamento para ônibus intermunicipais! Vivo lamentando nunca ter pego o Trem de Prata, que ligava o Rio a São Paulo, mesmo tendo idade para isso. E o motivo sempre foi o mesmo: pressa. Mas pra que? “É o único jeito de desligar, perco algumas horas sim, mas venho dormindo e chego muito melhor quando estou em uma dessas viagens a trabalho”, conta Ronald, um engenheiro de Salt Lake City que desembarcou comigo em Denver.

Então porque a gente parou de andar de trem? Existe muito debate sobre as razões do declínio do transporte ferroviário de passageiros. Muita gente culpa a entrada em cena dos carros, depois dos ônibus, e finalmente dos aviões. Nos Estados Unidos, alguns preferem creditar a queda no número de passageiros ao uso das linhas durante toda a Segunda Guerra, prioritariamente para fins militares. Difícil. Mas o fato é que aqui, na Meca do Capitalismo, essa modalidade de trens só não foi extinta por uma razão que chocaria muitos neoliberais tupiniquins: ação do governo na economia.

No fim dos anos 60, após anos de discussão no Congresso, os americanos decidiram que o negócio era importante demais para acabar. Desse ou não desse lucro. Em 1971, o presidente Richard Nixon assinou o ato que criava a Amtrak, empresa que iria reunir as 26 operadoras que estavam nas cordas. Foi feita toda uma reorganização do sistema, que equacionou linhas e vendeu praticamente a metade dos 364 trens em operação. Até hoje a Amtrak não saiu do vermelho, mas o Congresso e a Casa Branca continuam subsidiando a companhia. Algumas coisas existem porque precisam atender pessoas, não só dar lucro. A empresa hoje atende cerca de 500 cidades em 46 estados americanos e três canadenses, cobrindo cerca de 34 mil quilômetros todo dia com mais de 300 trens.

Uma das táticas da companhia consiste na contínua promoção dos seus trechos mais, digamos “cenográficos”. Além do nosso California Zephyr, o “top 5” reúne a Coast Starlight, que liga Seattle a Los Angeles; a Adirondack, que vai de Nova York City a Montreal; a Sunset Limited, de New Orleans a Los Angeles e a Empire Builder, que conecta Chicago a Seattle. Para os coleguinhas jornalistas que estão atravessando esse Vale de Lágrimas em nossa profissão, a Amtrak ainda oferece um alento: um programa de residência que oferece uma cabine e refeições em 15 dos principais roteiros para novos escritores. Desde sua criação em 2014, mais de mil novos talentos já participaram. Corram!

E por hoje é só. Amanhã começo a falar da chegada em Denver.


 

Dia 5

Recebi um justíssimo puxão de orelhas ontem porque falei um monte, menos quanto custa a passagem do trem. E esse é justamente o ponto mais importante de todos. No California Zephyr, que faz a ligação entre San Francisco (ou, especificamente, Emeryville que, como já expliquei aqui antes, é algo meio parecido com Niterói para o Rio) e Chicago custa entre US$ 135 e US$ 485. Isso mesmo. Dá pra atravessar o país pagando pela passagem menos do que você gastaria numa Ponte Aérea Rio-São Paulo. Se você quiser esticar até Washington como eu, só pra marcar na coronha do fuzil que efetivamente cruzou o país de um lado para o outro, a passagem de Chicago até a capital custará entre US$ 81 e US$ 625. Em resumo, dá pra atravessar os Estados Unidos numa paulada só de dois dias e meio pagando cerca de US$ 215. No site da Amtrak você encontra ainda diferentes promoções e as diferenças de tarifa dependendo de quantas paradas você quer fazer pelo caminho.

Voltando a Denver, ontem foi dia de trabalhar. Uma de nossas idéias pro Jabuticabatube é fazer vídeos em diferentes cidades do tipo “3 lugares para comer em..”. E o primeiro restaurante da lista que preparamos em Denver foi o Biker’s Jim, especializado em cachorros-quente gourmet. O barato da casa são as salsichas especiais, que podem ser de bisão, javali ou carne de cascavel _ a que escolhi para provar. O gosto lembra um pouco jacaré, ou seja, nada que por si só valha muuuuuuito a pena a empreitada, fora a curiosidade claro. Os molhos da casa porém merecem atenção especial. Espere pelo vídeo na nossa playlist da viagem no nosso canal, que você pode clicar aqui pra conhecer e já assinar.

De lá resolvi bater um pouco de perna e fui até o museu que fica na casa de Molly Brown, a “insubmergível”. Pra que não ligou o nome à pessoa, Molly era uma personagem que me chamara atenção no filme “Titanic”, no qual foi interpretada pela atriz Kathy Bates. Se você ainda não lembrou, ela era a amiga de Rose, a personagem de Kate Winslet, e era meio retratada como uma nova-rica exótica, divorciada (escândalo!) mas o que mais me atraiu é que ela era a única a demonstrar alguma tolerância pelo romance entre Rose e Jack (Leonardo di Caprio). Só que a “unsinkable Molly” era muito mais do que isso, era de fato era uma mulher à frente de seu tempo.

Patrocinou ações do movimento sufragista americano, foi eleita “chairman” dos sobreviventes do Titanic e após a Primeira Guerra Mundial, liderou um grupo de mulheres voluntárias que montaram hospitais e atenderam sobreviventes do conflito. Essa história de “insubmergível” é, cá entre nós, uma grande palhaçada e desmerece Molly. Surgiu nos anos 1960 quando o compositor Meredith Wilson e o escritor Richard Morris lançaram na Broadway o musical “The unsinkable Molly Brown”, que viraria um filme em 1963 com Debbie Reynolds (a mãe da Princesa Leia, millenials) no papel principal. Ela seria “insubmergível” porque, além de sobreviver ao naufrágio do Titanic, teria também escapado de um casamento que naufragou. Sacaram? Poupem-me. No vídeo do noss canal vamos contar mais detalhes da história dela e de uma ooooutra personagem, essa sim, que merecia a alcunha de “insubmergível”. Aguardem.

Agora é partir para nova etapa dos trabalhos. Hoje vou ver como funciona aqui no Colorado essa história de legalização da maconha. Espero voltar por aqui amanhã com algo mais que um sorriso na face e uma flor no coração. Contagem do AppleWatch – 19,5 km percorridos.


Dia 6

Um dos dias mais aguardados da viagem. Bom, quer dizer, deixa pra lá…A convite do Turismo do Colorado, participei do Weed Bus, uma espécie de buzão da brenfa, que leva o turista em tour por plantações, lojas e fábricas de bongue, por módicos US$ 99. Como em Denver qualquer um pode comprar maconha, mas não pode consumir legalmente ao ar livre, o weed bus acaba sendo uma alternativa para o passante queimar um sem maiores riscos de dores de cabeça. Afinal, caso seja flagrado pela polícia, malandro pode morrer em US$ 500 de multa. A posse acima de 15 gramas, aviso logo, é cana certa.

Confesso que rolou de cara uma certa brochada inicial. Esperava que tal ônibus fosse assim uma “Mistery Machine”, colorido, transado, tipo o famoso furgão do Scooby Doo. Pelo contrário. O buzun é uma van gigante preta, de vidros escuros, estilo muito mais “Tropa de Elite” do que “Hair”. O público é indecifrável. Universitários hipsters, coroas de chapéu de caubói, um tiozão brasileiro (ops). Em tese sim, há o tal roteiro. Mas todo mundo sabe porque está ali, e basta o motorista fechar a porta para começar um fumacê daqueles onde mal dá pra ver um ao outro. E tome Bob Marley, Chronic e Vybz Cartel nas carrapetas.

Dentre as paradas do roteiro, (boa parte delas para o reabastecimento da rapaziada) a mais bacana é a visita às instalações da Medicine Man. É uma empresa pioneira no Colorado, primeiro no ramo da maconha medicinal, hoje também atuando na área recreativa. O complexo é tudo aquilo que o seu amigo cabeludo sempre sonhou em construir, mas nunca passou do primeiro Big Bob com milk shake de Ovomaltine. Os visitantes acompanham o plantio das sementes, a transferência das mudas para os vasos até grandes containers onde os pés crescem em ambientes com luz e água climatizados. O programa completo encerra, pontualmente, às 16h20, naturalmente.

Uma chapada, duas Coca Colas e um saco de Crunch em pedaços depois, resolvi fazer uma caminhada até o Buckhorn Exchange, um antigo saloon fundado em 1893 que se orgulha de ser o restaurante mais antigo em atividade no Colorado. É uma churrascaria de enfartar vegano. Toda a decoração é feita com enormes animais empalhados: ursos, veados, e até uma imensa cabeça dos famosos e imensos búfalos americanos que a gente via na Sessão da Tarde, e que no fundo não passam de um boi que tomou muito whey. Um dos pratos chefes da casa é a carne de alce, que provei pra acompanhar uma codorninha e achei bastante suculenta e saborosa. O restaurante oferece também bifões gigantes de bisão para serem divididos por até três pessoas, meio parecidos com bistecas florentinas.

Não sei porque, nada mais foi anotado e também não faço idéia de quantos quilômetros marcou esse relógio chato. Mas amanhã tem mais, amanhã tem Loopr!

 


 

Dia 7

Nos primeiros dias de viagem é difícil entender plenamente como funcionam as novas leis sobre maconha nos Estados Unidos. Em San Francisco, por exemplo, pode-se fumar à vontade nas ruas, mas é preciso tirar uma carteirinha que indica o uso medicinal para poder comprar _ nada que você não resolva por US$ 40 nas boas casas do ramo, mesmo sendo turista. Já em Denver, qualquer um pode entrar em um dispensary e fazer suas compras bastando apenas mostrar algum documento comprovando idade superior a 21 anos. Mas não se pode consumir em locais públicos, apenas dentro de casa ou no carro, se você não estiver dirigindo.

O turista que estiver de passagem pela cidade e quiser provar seu baseadinho tem duas alternativas. A primeira é pegar um taxi até 30 km do Centro de Denver e passar a tarde em uma das casas abertas para este fim como o Studio 420, uma espécie de clube de fumação. O local é igualzinho ao Centro Acadêmico de sua faculdade, não importa qual tenha sido sua faculdade, com sofás velhos por todos os lados, mesas, bongs, vídeo-games e lariquitos disponíveis para os frequentadores. Cobra-se US$ 10 para entrar de sócio e US$ 4,20 a cada visita, com direito a acompanhante. No fim das contas a sensação é meio decadente. Muito, mas muito mais bacana do que esse esquema é pegar o Loopr: o Uber dos maconheiros.

Basicamente o Loopr é um ônibus de 44 luagares adaptado com direito a música ambiente, banheiro, wifi e todos os gadgets imaginários para o consumo da erva. Ele circula nos principais points dos interessados no Centro de Denver e custa US$ 32 por um passe de 24 horas. Dei um rolé no fim da tarde e o que encontrei foi um clima, novamente, de centro acadêmico de universidade, com turistas de todos os cantos fumando e confraternizando durante o passeio. O roteiro inclui os principais “dispensarys” da cidade e algumas lojas de acessórios como a Purple Haze, que fabrica os “bongs” e cachimbos de vidro mais surreais que sua imaginação possa conceber.

A partir de amanhã a farra da fumaça acaba e voltamos a nossa programação normal.

 


Dia 8

Hoje foi dia de aproveitar o domingão para descansar, responder os e-mails e tentar organizar a logística das próximas etapas da viagem. Só saí do hotel para passear de Loopr e almo-jantar na churrascaria Ted’s Montana Grill, nenhuma relação com a casa de carnes dos irmãos sertanejos, mas sim endereço do melhor bifão de búfalo de todo o centro do Colorado.

Os búfalos americanos, ou bisões, são uma espécie de boi que exagerou no whey protein. São enormes, muito maiores do que um zebu brasileiro, bem, mesmo considerando que é raro alguém por aqui ver um zebu ou um holandês viver até chegar ao seu tamanho real de adulto. O Tim’s é um restaurante que lembra uma Majórica _ a famosa churrascaria de Petrópolis, na Serra do Rio _, com paredes decoradas em madeira escura. Mas valeu a brincadeira. O bifão é daqueles de comer virando os olhos. De lá voltei pro hotel que amanhã é dia de voltar pro trem no caminho até Chicago.


Dia 9

Nem tudo são flores numa viagem de trem. No caminho para Denver, o California Zephyr precisou parar devido a rochas que rolaram sobre os trilhos nas Rocky Mountains. O resultado foi um atraso de três horas antes do trecho até Chicago. Mas organização e respeito ao consumidor aqui, são outros quinhentos merréis. A cada meia hora a empresa enviava um email informando sobre o atraso. Você fica mais confortado, mas a viagem até a Cidade dos Ventos acabou levando quase 24 horas, o que é tempo demais pra qualquer cristão.

O caminho entre os estados de Nebraska e Iowa é bem mais “flat” e menos empolgante que o primeiro trecho da viagem. Basicamente são imensas planícies, pradarias, e enormes plantações de milho e trigo. Aqui e ali uma cidadezinha minúscula, que você não imagina que possa existir naquela lonjura, geralmente em volta de algum silo ou outro equipamento agroindustrial.

Como cheguei tarde em Chicago, acabei indo direto pro hotel. No caminho, uma surpresa, uma filial do Maggiano’s Little Italy, um restaurante que namorei muito em Denver, mas acabei não experimentando. Me chamava a atenção um cartaz enaltecendo as maravilhas do Carbonara da casa, que acrescenta caranguejo a tradicional receita de espaguete. Sim: bacon, ovo e caranguejo. Pode parecer estranho, mas resultou em uma alegria de US$ 31 e carne de caranguejo até fazer biquinho. Uma delícia.


Dia 10

Acordei relativamente cedo para duas visitas básicas. Primeiro ao famoso The Bean, nome popular para a mega escultura Cloud Gate, inaugurada em 2006 pelo artista indiano Anish Kapoor, bem no coração do Millenium Park. Kapoor durante anos odiou o apelido que o povão deu à obra, chamando-o em repetidas entrevistas de “completamente estúpido”. Mas basta olhar para o feijãozão para entender porque a alcunha pegou. A peça é formada por 168 placas de aço absurdamente polidas até ela ficar inteira lisinha, simulando uma imensa gota torta de mercúrio. Não precisa checar no meu insta pra adivinhar onde foi a tradicional foto da Fla Berrini, certo?

Uma passarela leva ao que foi um dos mais surpreendentes programas da viagem até agora: o Instituto de Arte de Chicago, um dos mais antigos e maiores museus dos Estados Unidos. Surpreendente porque, por mais que eu tivesse uma vaga idéia do tamanho do museu, não fazia idéia da dimensão enciclopédica e da importância do acervo. São mais de 300 mil peças, entre elas “O Velho Guitarrista”, de Picasso; “Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte”, do Seurat (que eu imaginava do tamanho de uma Mona Lisa, mas é um painel imenso!); “Nighthawks”, de Edward Hooper ou o “Quarto de dormir em Arles”, de Van Gogh, peças que mesmo que você seja um estúpido simpatizante de um MBL desses da vida, que curte brigar com exposições de arte, já deve ter visto alguma vez na vida.

O AIC está exibindo ainda a mostra “Tarsila do Amaral: inventing modern art in Brazil”. Em cartaz até janeiro de 2018, a mostra conta com mais de 120 telas, desenhos e documentos da artista brasileira (inclusive o Abaporu) e depois seguirá para o MOMA de Nova York, onde ficará em exibição até junho. Tarsila aliás, anda tão em alta que está prevista para este ano a produção de um filme sobre a vida dela, que deverá ser interpretada pela atriz Marion Cotillard.