Uma noite com Trump

Uma noite com Trump

Uma noite com Trump

Nada poderia ser mais simbólico. A descrição daquela suíte no quinquagésimo quinto andar do hotel localizado bem no centro de Toronto, Canadá, poderia facilmente começar pelo seu tamanho impressionante. Poderia talvez tratar da decoração que parece o tempo todo evocar poder e macheza, seja nas paredes de mármore preto do banheiro, ou no uso exagerado de couro no mesmo tom forrando o gigantesco closet. Mas o que chamou mesmo a atenção foi um mimo singelo colocado sobre o travesseiro. Um chocolatinho em forma de barra de ouro com letras em relevo formando uma só palavra: “Trump”. É uma obsessão. O mesmo nome está espalhado por toda a parte, tudo enorme e dourado, dos itens do minibar aos amenities dos banheiros. Tudo à venda na lojinha que fica atrás da mesa do elegante concierge.

Mármore preto por todos os lados no banheiro da suíte

O cinco estrelas de 65 andares, localizado bem no coração financeiro de Toronto, é um dos mais sofisticados hotéis da rede do mais novo presidente dos Estados Unidos. E não à toa, é considerado de maneira quase unanime entre a crítica dita especializada, o melhor da cidade. Os hotéis Trump são encontrados hoje em 15 endereços nas melhores localizações de cidades como Nova York, Washington, Las Vegas ou Chicago entre outras. O Rio de Janeiro deveria fazer parte dessa lista, mas no fim de 2016, a Trump Organization anunciou que iria deixar de administrar o empreendimento que fora erguido na Barra da Tijuca.

O prédio torcido do Trump de Vancover

Localizado na esquina das avenidas Bay com a Adelaide, o Trump International Hotel & Tower de Toronto está ao lado das principais atrações turísticas e/ou corporativas da cidade canadense, como a CN Tower ou a Bolsa de Valores. A decoração cosmopolita dos quartos e do spa impressionam pela suntuosidade e o luxo. A suíte principal tem absurdos três andares! O café da manhã é um delírio de gastronomia ogra, com montanhas de bacon, salsichas, hambúrgueres estilo Scooby Doo e pratos de culinária mexicana imperdíveis. Mas se preferir uma opção detox, prove o Green Giant Juice, um suco verde grosso que combina abacate, espinafre, gengibre, couve e abacaxi. Antes das eleições, você recebia depois do check out um email de agradecimento assinado pelo hoje homem mais poderoso do mundo. Tarefa que a partir de agora ficará, com muito menos charme, para um dos herdeiros.

Fazendo marketing ao melhor estilo “rato que ruge”, a rede, que é infinitamente menor do que os gigantes do setor, tenta impressionar o mercado ostentando números grandiosos. O Trump de Chicago, com quartos modernos e janelas que tomam conta de toda a parede, é o “prédio de concreto mais alto do mundo”. O Trump Panama, que tem um gigantesco cassino e cinco piscinas no décimo-terceiro andar, é o “edifício mais alto e largo da América Central”. O Trump Vancouver, cujo carro-chefe é um sofisticadíssimo bar de champagne, quase chega lá. É o “segundo mais alto da cidade” e um dos hotéis do grupo que tem a arquitetura mais singular: parece uma imensa torre triangular retorcida.

Alguns dos Trumps são dedicados exclusivamente aos amantes de golfe, como o de Doonbeg, região litorânea da Irlanda a 300 km de Dublin. Operando em um palacete histórico, tem como destaque vistas fantásticas do oceano e um campo incrível de 18 buracos projetado por Greg Norman, vencedor de 91 torneios internacionais. Também dedicado ao esporte é o hotel de Aberdeen, na Escócia, uma mansão com apenas 19 suítes chamada MacLeod House and Lodge, que é frequentada por jogadores como Justin Rose, Phil Mickelson e Rory McIlroy.

Amantes de vinho contam com o Trump Winery, em Charlosttesville, na Virginia, uma mansão de 1760 com belos lustres de cristal e papéis de parede pintados a mão. O Trump de Las Vegas, uma torre de 64 andares de vidro dourado que se destaca na paisagem, curiosamente não conta com um cassino. Segundo os administradores, para manter um clima família no local. E outra curiosidade, o Trump do SoHo, em Nova York, ostenta orgulhosamente em seu site a informação de que é um hotel gay friendly, o que contrasta com o discurso mega conservador do novo inquilino da Casa Branca.

Antigo prédio dos Correios que hoje abriga o Trump de Washington, o hotspot da nova república

Trump possui dois endereços em Nova York. Além do SoHo, o Trump International localizado ao lado da 5 Avenida, com muitos de seus 176 quartos oferecendo uma vista privilegiada para o Central Park, talvez seja o seu empreendimento mais famoso. O hotel tem quartos com janelas que vão do chão ao teto, móveis com ricos acabamentos em madeira, espelhos em bronze folheados a ouro e candelabros de cristal Schonbek feitos à mão. Na modesta opinião deste blog, ele só serve para atrapalhar a vista para o parque do Mandarin de Nova York, que é um hotel bem mais bacana. #prontofalei

Naturalmente, o hotel da rede que tem sido mais comentado nos últimos dias é o Trump International de Washington, inaugurado em setembro último, na avenida Pensilvânia, a poucos minutos da Casa Branca e do Capitólio. Ele ocupa o antigo edifício-sede dos Correios, um ícone arquitetônico da capital norte-americana, meio parecido com um castelo europeu, que passou por uma reforma de mais de US$ 200 milhões. Devidamente alinhado com o melhor estilo do grupo, ele afirma ser o “maior salão de baile” e ter “os maiores quartos” da cidade. Com a vitória nas últimas eleições, a possibilidade de esbarrar com os Trump pelos corredores tem atiçado a imaginação dos curiosos, que estão promovendo verdadeiras romarias ao hotel. É que os filhos do bilionário já disseram que ficarão hospedados ali quando estiverem em Washington.

No Brasil, a história da passagem da rede foi breve e confusa. O hotel na praia da Barra, de 171 quartos, custou R$ 300 milhões (R$100 milhões a mais do que o previsto), e é de propriedade da LSH Barra Empreendimentos Imobiliários, cujo CEO é Paulo Figueiredo, ex-assessor especial de Eduardo Paes na Prefeitura e neto do ex-presidente João Figueiredo, último dos ditadores do Regime Militar. A empresa é alvo de uma investigação do Ministério Público Federal e foi citada na Operação Greenfield, que investiga fraudes na Previdência. De acordo com o jornal El País, uma porta-voz da empresa alegou, entretanto, que o motivo para o rompimento foi a demora na construção do hotel, que deveria ter sido entregue totalmente pronto antes das Olimpíadas, o que não aconteceu.

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