Tailândia: Em busca da ilha perfeita

Tailândia: Em busca da ilha perfeita

Tailândia: Em busca da ilha perfeita

Lançado em 2000, o filme A Praia catapultou o interesse pela Tailândia e redefiniu entre viajantes o conceito da ilha perfeita: aquela com faixas de areia branquíssima, águas transparentes e isolada dos turistas. Primeiro filme estrelado por Leonardo di Caprio desde o megassucesso de Titanic e com direção de Danny Boyle, do cult Trainspotting (1996), a produção entretanto acabou morrendo na praia, afogada por críticas e discussões ecológicas. O maior problema foi justamente com o local onde foi feita a maior parte das filmagens: Maya Beach, na pequena ilha de Phi Phi Le, no sul do país. Insatisfeita com a vegetação local, a produtora 20th Century Fox desembarcou tratores e refez um trecho a seu gosto, chegando a aplainar dunas de areia para que pudesse encenar uma partida de futebol. A controvérsia estava só começando.

Para quem não viu o filme, Maya Beach é uma autêntica joia da natureza. Uma pequena baía de águas morninhas e tão transparentes que parecem um aquário, cercada por rochas altíssimas e sem residências – embora hoje em dia alguns mochileiros possam conseguir autorização para passar a noite acampados. Tamanha beleza natural foi pouca para os padrões hollywoodianos. Os produtores resolveram espetar 100 paradisíacas palmeiras ao longo da orla da praia, mas a gritaria dos ativistas foi tanta que acabaram baixando o número para 60. DiCaprio lamentou a polêmica, declarou-se simpatizante da causa ecológica e chegou a dizer que sua reputação ficaria prejudicada se fosse associado “a uma produção que destrói a natureza”, o que ele não permitiria. Os ativistas tailandeses responderam confeccionando máscaras do ator com dentes vampirescos escorrendo sangue.

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Os longtails podem ser alugados pelos turistas para singrar as águas cristalinas do sul da Tailândia

O face-lifiting de Phi Phi abrangeu ainda mudanças na vegetação de Maya Bay, um dos melhores pontos de snorkeling da região, praticamente do outro lado de Maya Beach. Lá fica também a Viking Cave. Não, os vikings não estiveram por aqui. Trata-se de uma caverna cheia de ninhos de pássaros e repletas de inscrições de pescadores chineses e tailandeses que datam de mais de 400 anos. Eles usavam o local como ponto de oração e de oferendas para seus deuses. Um barato aqui é escalar os andaimes de bambu para lá do alto mergulhar nas águas transparentes. Alpinistas deixaram também cordas que levam ao cume das montanhas para quem quiser ousar saltos mais radicais. Informação fundamental: Maya Bay não é Maya Bay com a maré baixa. E ela fica completamente cheia ao meio-dia. O ideal é chegar por volta das 9 da manhã, quando a maré começa a subir.

A Praia usou e abusou do arquipélago de Ko Phi Phi, mas acabou desperdiçando bacanezas como a ilha de Monkey Beach. Como o nome diz, é o lugar é uma praia onde todo dia dezenas de macacos são vistas brincando à beira do mar. Alguns chegam a ter quase um metro quando se esticam de pé! É possível chegar lá até de caiaque, em uns bons 20 minutos de remadas a partir de Loh Dam Bay, onde fica boa parte dos melhores hotéis. A areia aqui é bem suja, pois os macacos a-do-ram objetos que refletem a luz, como garrafas de água ou interior dos pacotes de salgadinhos, e costumam roubá-los dos visitantes que marcam bobeira – sem falar nos idiotas de plantão que jogam lixo de propósito só para ver os macacos pegarem. Mas se você quiser interagir de verdade, a dica é explorar outras praias mais isoladas, onde eles também dão as caras.

A grande verdade é que a encrenca  causada pelo filme tinha raízes mais profundas. Povo extremamente apegado às suas tradições, os tailandeses temiam que a explosão do turismo nas ilhas repetisse o que eles chamam de a “infâmia do 007” e a região passasse a ser conhecida como “Praia do Leonardo”. É que em 1974 Roger Moore esteve na ilha Khao Phing Kan, ao noroeste da cidade de Phuket,  filmando um trecho de 007  Contra o Homem da Pistola de Ouro. O roteiro original previa que as cenas se passassem em Ha Long Bay, no Vietnã, mas com a guerra ainda em curso, foi preciso improvisar. E o jeito foi aproveitar o principal marco da praia, o Ka Tapu, uma espécie de torre de rocha calcária de cerca de 20 metros de altura, com um diâmetro que vai aumentando de uns quatro metros ao nível do mar até atingir oito no topo. As formações de rocha por aqui são  muito semelhantes às que se encontram na baía vietnamita. Hoje, quem visita a praia, que tem apenas algumas dezenas de metros, se depara com nada menos que 52 lojas espremidas vendendo lembranças da…”James Bond Island”.

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Ka Tapu, local que o tailandeses chama de “a infâmia do 007”

Turista é bicho tinhoso. Koh Hua Gwan, ilha que durante eras foi chamada pelos nativos de “Ilha do Machado”, foi rebatizada pelos viajantes como “Ilha da Galinha”. Isso porque, visto a partir de um certo ângulo, o rochedo é igualzinho a… você adivinhou! Ela faz parte de um conjunto batizado “Quatro Ilhas de Krabi”, parada obrigatória para quem vai a Phi Phi, e inclui a Phra Nang Cave Beach, considerada uma das mais bonitas extensões de areia da Tailândia; a Ilha de Poda, imagem icônica de boa parte dos cartazes promocionais do país; e a Tub Mor, um grupo de ilhotas rochosas que são ligadas por um banco de areia somente quando a maré baixa.

Em 2004, a natureza encarregou-se de eliminar os estragos não só cinematográficos como os efeitos de quase 30 anos de turismo predatório. O famoso tsunami que devastou parte do sudeste asiático atingiu a costa com ondas a 200 quilômetros por hora e mais altas do que as rochas. Os hotéis pé na areia foram arrasados, e nada menos que 5 mil pessoas morreram ou estão desaparecidas até hoje somente na região de Phi Phi, Krabi e Phuket. Por outro lado, segundo estudos da Associação de Turismo de Phuket, a qualidade das águas nas praias retornou a níveis somente registrados nos anos de 1960. Pescadores relataram ter encontrado peixes que não viam há anos devido à poluição. A vegetação nativa retornou e as malditas palmeiras a essa altura já devem ter sido levadas pelo mar até a Califórnia.

Para explorar essa incrível região, não é preciso sair a nado como faz o personagem de Di Caprio no filme. A partir das cidades de Phuket ou Krabi partem excursões em barcos grandes, com capacidade para 20 ou 30 pessoas. Mas o melhor mesmo é alugar o seu iate ou o mais bacana: fretar um long tail, o barco típico e colorido que você já viu em todas as fotos da Tailândia. Tire um dia para dar aquela “geral” em todos os principais pontos mas reserve ao menos um para um programa especial. Acorde cedo, prepare um farnel esperto com aquele champã geladíssimo na bagagem e peça ao barqueiro para deixá-lo com aquela pessoa amada em alguma das muitas praias menos concorridas das ilhas. Claro, não esqueça de marcar a hora dele resgatá-lo. Mas somente se quiser muito. A experiência é única e inesquecível.

Mas se quiser curtir as praias mais famosas, faça isso cedo. Porque, com tantas boas notícias, os turistas voltaram com tudo. Principalmente vindos da China. A Tailândia é hoje o terceiro destino mais visitado por chineses em todo o mundo (Hong Kong e a Coreia do Sul lideram o ranking, e curiosamente os Estados Unidos aparecem apenas na 11 colocação). Em 2014, 2,8 milhões de chineses carimbaram passaporte nos aeroportos internacionais tailandeses, segundo a China National Tourism Administration. O resultado é que se você não ficar esperto, vai ser soterrado por um verdadeiro tsunami de viajantes que, para sorte de quem cedo madruga, irrompe em enormes e festivos iates baía de Maya Beach adentro, ali por volta das 10 da manhã. Nin hao!

Passados mais de dez anos da tragédia do tsunami, hospedagem hoje não é mais problema. As cidades de Krabi e Phuket são ponto de partida para quem estiver disposto a explorar o paraíso, e diversas companhias como a Turkish e Etihad operam voos diários até esses destinos, saindo, naturalmente, de Bangkok. Ambas estão dotadas de hotéis de primeira, mas não configuram propriamente um passeio no qual vale a pena perder seu tempo. O ideal é hospedar-se em Phi Phi Don, a única das ilhas habitadas do arquipélago. No início, sim, é estranho, mas você logo vai se acostumar com as inúmeras placas espalhadas por todos os lados indicando rotas de evacuação em caso de novo incidente.

Se preferir hospedar-se em Krabi, uma dica é o Sheraton Krabi Beach Resort, espaço e confortável hotel, repleto de restaurantes e áreas de lazer, com 240 quartos e suítes espalhadas por oito pequenos edifícios debruçados para uma praia particular. Fica um pouco afastado do centro da cidade e do píer de onde saem a maior parte dos barcos, mas o transporte não é caro. O melhor desse hotel gigante são suas piscinas, onde ao fim do dia, depois de percorrer as ilhas, sentar no bar molhado e pedir uma Chang (cerveja tailandesa) geladíssima é uma das razões para se viver.

Viajar para a Tailândia é ter a certeza de que seu nível de tolerância a pimenta terá aumentado exponencialmente ao voltar para casa. Em Krabi, você terá algumas das melhores opções de provar as delícias da gastronomia local. O melhor thai da cidade é o Ruen Mai, citado frequentemente entre os tops do país. Peça uma mesa no salão ao ar livre, no meio de um lindo jardim, e evite a hora do almoço, quando a casa fica cheia de ônibus de excursões estacionados na porta. Seu principal concorrente é o Ruan Tip, de cardápio, digamos, mais criativoso. À noite, oferece música ao vivo e se torna um badalado ponto de encontro.

Phuket, por sua vez, é uma cidade mais animada. Antes de virar uma das principais regiões turísticas da Tailândia, estava bem no meio da rota das especiarias entre a Índia e a China, atraindo árabes, indianos, malaios, chineses e portugueses interessados no comércio e oportunidades da região. Toda essa riqueza gerou uma arquitetura extremamente interessante, que mescla influências portuguesas e chinesas. Em regiões como Patong e Karon você pode ainda encontrar aquele lado mais selvagem que as pessoas comentam muito quando vão para a Tailândia: boates com shows de pompoarismo,  inferninhos com garotas de programa, ladyboys (travestis) e muita ferveção. Se quiser uma noitada mais tradicional, a dica é Phuket Town, região frequentada pelos nativos.

Em Phuket, os que estiverem enleivados de amor, viajando em primeira, segunda, ou sabe-se lá qual lua de mel, não podem perder a chance de se hospedar no belíssimo cinco estrelas The Shore at Katathani. “O tempo aqui não faz sentido”, é o slogan do hotel, dotado de confortáveis vilas de 130 m2 com piscina de borda infinita. Os quartos são um pouco afastados da praia, mas carrinhos de golfe resolvem o problema. O café da manhã é espetacular, incluindo muitas opções chinesas ou tailandesas, e pode ser servido em seu terraço particular sobre o mar.

Outro hotel de vista fabulosa é Sri Panwa, um verdadeiro oásis de calma e luxo no topo do Cabo Panwa, que, com seus quartos e vilas localizados 60 metros acima do nível do mar, oferece uma visão deslumbrante da ponta sudeste de Phuket. Aberto em 2005, tornou-se um dos “favoritos das celebridades” – é onde costuma se hospedar a família real tailandesa quando passa por ali –, chegando a ser eleito o hotel “mais sedutor” do país pela revista Thailand Anywhere. Suas vilas são imensamente espaçosas, podem ter até cinco suítes, reúnem todos os aparatos da tecnologia que fazem a alegria do homem moderno e foram projetadas com janelões imensos para não se perder um só detalhe da paisagem.

Naturalmente, Phuket é também uma festa para o foodie mais exigente. Belvedere privilegiado para o Cabo Yamu e considerado o número 1 da cidade, o Breeze, de comida thai moderna e inventiva, serve um pato com mostarda de damasco que fará ter valido a pena todas as horas que você passou no avião até chegar aqui. Quem cansou de curry pode matar a saudade de uma boa pasta no Acqua, italiano chique na praia de Kalim, ao norte de Patong, pedaço repleto de pequenos restaurantes que é hoje o hotspot da cena gastronômica local. Aproveite também que a cidade abriga uma das sedes da badalada rede Blue Elephant e leve para casa alguns dos temperos fabricados pela “grife”. Dado o interesse crescente pela culinária local, muitos dos restaurantes bacanudos por aqui oferecem também cursos, de diferentes formatos, onde você, por exemplo, poderá aprender a fazer aquele massaman curry de camarão que vai impressionar seus amigos no almoço do próximo domingão.

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Detalhe do serviço do hotel Zeavola na praia de Phi Phi Don

Saindo de barco de Phuket ou Krabi pode-se perder pelo menos uns 90 minutos no trajeto até as melhores praias. Por essas e outras, melhor hospedar-se na ilha de Phi Phi Don, onde você terá opções desde grifes como Holyday Inn até pousadas de charme. Na beira da praia, o gostosíssimo Zeavola é um destaque. A proposta aqui é ser eficiente, natural e high-tech. O hotel fica 30 minutos do centrinho da ilha, e todas as suas cabanas são espalhadas pela natureza, algumas pé-na-areia, no meio do jardim e outras encostadas no morro. A decoração desse ecoresort, considerado o quinto melhor da Tailândia, é espetacular e o serviço beira o estado da arte.

Passados 15 anos, A Praia ainda divide opiniões. No ano de seu lançamento, por exemplo, Leonardo di Caprio – que substituiu Ewan McGregor no papel de protagonista – foi indicado simultaneamente ao Globo de Ouro como melhor ator no Festival de Berlim, e ao Framboesa de Ouro, premiação irônica para o pior de sua categoria. Críticas à parte, o filme serviu ao menos para divulgar amplamente imagens fantásticas de um dos países mais interessantes do mundo. Chegou a sua hora de conhecê-las ao vivo.

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