Rococó Flamejante: no Palácio de Catarina

Rococó Flamejante: no Palácio de Catarina

Rococó Flamejante: no Palácio de Catarina

Os antigos czares russos não tinham o menor pudor com dourado. E eles misturavam o tom reluzente com azul-claro, rosa, verde em padrões de luxo e ostentação que deixam boa parte dos famosos palácios franceses com pinta de Quinta da Boavista (o famoso casarão de São Cristóvão, no Rio, onde morou a família imperial e que era motivo de piada nas cortes europeias pela sua arquitetura modesta). A cidade de São Petersburgo é pródiga em exemplos, como o antigo Palácio de Inverno, que hoje abriga o fantástico Museu Hermitage;  Peterhoff, complexo onde viveu Pedro, o Grande, que é considerado a Versalhes russa; e o Palácio de Verão, também conhecido como Palácio de Catarina.

Localizado a 30 km de São Petersburgo na cidade de Tsarkoye Selo (antiga Pushkin no período Soviético), o Palácio de Catarina é um desbunde que impressiona logo na chegada do visitante pela fachada de 325 metros. Seus aposentos são enormes e ricamente dourados, com destaque para o conjunto de 11 salões conhecido como Fileira Dourada, que começa na Galeria das Luzes, um imenso salão para bailes e recepções de cerca de mil metros quadrados, maior do que a Galeria dos Espelhos de Versalhes _ que tem 876 metros.

Antes de continuarmos, porém é preciso um breve para a História. Muita gente confunde e atribui este palácio à talvez mais famosa das imperatrizes russas, Catarina II, que governou entre 1762 e 1796.  Reconhecida como “a Grande”, ela poderia também ser denominada “a esperta”. Seis meses após seu marido, o Czar Pedro III, assumir o trono, ela organizou um golpe de estado com o amante, matou o imperador e deu início a um dos períodos de grande expansão do império russo.

A descomunal galeria das luzes, maior que a galeria dos espelhos de Versalhes

Mas, voltando ao palácio, quem então começou para valer sua construção foi a primeira Catarina, esposa do famosíssimo czar Pedro, o Grande, em 1717. Após sua morte, sua filha, a imperatriz Isabel, resolveu derrubar a maior parte da construção, por acha-la muito feia, e mandou o arquiteto da Corte erguer uma nova estrutura, muuuuito maior, ao estilo “Rococó Flamejante”. Os trabalhos levaram quatro anos com inúmeras idas e vindas. Só em ouro foram consumidos mais de 100 quilos apenas para dourar a fachada. Quando foi finalmente inaugurado, deixou deslumbrados os cortesãos e embaixadores estrangeiros. Durante muito tempo correu a lenda de que as cúpulas dos telhados eram inteiras de ouro maciço.

Mas depois da morte de Isabel, sua sucessora, a imperatriz Catarina, a Grande, voltou a implicar com o palácio que achava oneroso e fora de moda. “Esta casa foi deitada abaixo seis vezes até às fundações e depois construída de novo, antes de chegar ao estado atual. Foi gasta uma soma de um milhão e seiscentos mil rublos na construção. Existem contas para provar isto; mas além desta soma, a Imperatriz gastou muito dinheiro do seu próprio bolso que nunca foi contabilizado”, registrou Catarina em suas memórias. Consta que num dia de mau humor chegou a mandou pintar aquele ouro todo, mas foi demovida da idéia. Depois de sua morte o Palácio sofreu 20 anos de abandono até cair nas graças do czar Alexandre I, que entre outros melhoramentos, mandou construir a impressionante escadaria.

Detalhe da amber room

Ao longo do parque que cerca o Palácio, o visitante pode encontrar mais de 100 monumentos históricos espalhados por uma área de 300 hectares. No interior, vai se deparar com detalhes impressionantes, como um mobiliário fantástico, porcelanas finíssimas, salões cobertos de obras de arte ou as imensas lareiras de cerâmica decoradas em estilo holandês, em homenagem ao czar Pedro, o Grande, fundador  de São Petersburgo. Mas a grande estrela do Palácio é a sala decorada inteiramente com placas de âmbar, a preciosa resina usada em joias, na cor caramelo. Após a Segunda Guerra, os nazistas roubaram todas as placas de âmbar. Passado um tempo algumas delas foram encontrados em um castelo nas proximidades do mar Báltico mas novamente sumiram. Hoje em dia, apesar dos inúmeros protestos russos, a Alemanha nega que elas estejam em seu território.

Foram 28 meses de ocupação, que arruinaram a maioria das salas. Durante a retirada, o que os alemães não puderam carregar foi incendiado, e em 1944 o Palácio estava inteiramente em ruínas. Os nazistas  só não contavam com o esforço coletivo dos empregados do palácio, que conseguiram salvar inúmeros objetos de decoração e obras de arte que foram enterradas em terrenos afastados, para evitar o risco de serem atingidas por bombardeios. Desde o fim da guerra os russos estão reformando o palácio. Hoje, dos 52 salões, 29 já brilham lindos e dourados como nos bons tempos. Mas os restauradores estimam que vão levar pelo menos mais 20 anos até encerrarem os trabalhos.

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