A reinvenção da Índia

A reinvenção da Índia

A reinvenção da Índia

Visto assim de longe, parece um farol de cor âmbar flutuando a quase 100 metros de altura sobre a paisagem noturna da cidade de Mumbai, na Índia. O prédio, de 27 andares, e quase 40 mil metros quadrados de área construída, é na verdade uma residência particular, considerada a mais cara do mundo, perdendo no ranking apenas para o Palácio de Buckingham, em Londres, que para todos os efeitos é um edifício que cumpre uma função de estado. Só de garagem vão oito andares, que abrigam quase 168 automóveis de luxo das mais variadas montadoras. Quem preferir ir pelos céus têm ao dispor três helipontos. Elevadores são nove, fora os de serviço. O cineteatro comporta 50 pessoas confortavelmente instaladas em poltronas de couro. Uma tropa de 600 empregados cuida da faxina e atende a apenas cinco pessoas:  seu proprietário, o empresário Mukesh Ambani, dono da petroquímica Reliance Industries, sua mulher e os três filhos do casal (sendo que dois deles passam parte do ano estudando nos EUA). Batizada de Antilia, nome de uma ilha mítica no Oceano Atlântico, custou a bobagem de US$ 1 bilhão. Curioso é que, terminadas as obras, o empresário _ um dos homens mais ricos da Índia, com um fortuna estimada em US$ 22 bilhões _ relutou muito até se mudar. Menos pelos problemas com as autoridades locais que implicam até hoje com o seu excesso de extravagâncias, mais pelas previsões de um certo professor Basannt R. Rasiwasia. Expert em Vastu Shastra, uma milenar “ciência da arquitetura” hindu que estabelece bases para a organização dos espaços, ele garantiu que o bilionário teria má sorte em seus empreendimentos caso resolvesse mudar para a nova casa. Mukesh levou longos quatro anos até se convencer a mandar a profecia as favas, juntar os trapinhos e curtir em paz seu cafofo. Os negócios da família continuam muito bem, obrigado.

 antilla_mumbai_indiaAntilia, a casa mais cara do mundo

Este é apenas um retrato  do momento peculiar que vive a Índia, país que está ultrapassando potencias como China e Estados Unidos como o que mais cresce no mundo. E a força motor desse desenvolvimento vem de uma região ainda pouco desbravada pelos brasileiros: o Sul do país, onde hoje a cada dia nascem novas empresas de tecnologia de ponta, universidades, centros de pesquisa. A impressão que se tem, ao cruzar estados como Kerala ou Tamil Nadu, é que se não houvessem mais de um bilhão de indianos, a economia local estaria voando. Porque, apesar da evidente e inúmeras vezes chocante pobreza, as escolas funcionam pra valer, os hospitais por mais que pareçam aos pedaços, funcionam pra valer, mesmo em alguns locais mais carentes. A medicina indiana, aliás, é considerada de tamanha qualidade hoje que já existe até um chamado “turismo médico”, formado em boa parte por norte-americanos em busca de bons procedimentos e melhores preços. Um exemplo: uma cirurgia de catarata custa entre 6.200 e 70 mil rúpias, ou seja, entre US$90 e US$1.022, enquanto nos Estados Unidos sai por baixo por cerca de US$3.000.

Se a distância algum dia foi um complicador para encarar uma viagem como essa, com as companhias aéreas árabes entrando pesado no mercado oferecendo serviços de deixar de cara as americanas, isso deixou de ser problema faz tempo. A reportagem de Jabuticaba aproveitou a oportunidade para testar o novo A380 da Etihad, na rota Abu Dhabi-Mumbai, e em especial a nova e já mítica primeira classe chamada La Residence. Dotada de sala de estar com uma megatv, quarto separado com cama de casal, banheiro com chuveiro e mordomo ao longo de todo o voo, ela foi projetada especialmente para duas pessoas viajando juntas. O que, infelizmente, não foi o caso.

Mumbai, a antiga Bombaim (no fim do século XX várias cidades indianas repudiaram seus nomes “ingleses”, adotando suas denominações anteriores) é o maior centro econômico e comercial da Índia. E isso é facilmente perceptível ao viajante não apenas por ser endereço da cobertura surreal citada aqui no primeiro parágrafo, mas onde, em uma boa caminhada, pode-se avistar outras, de tamanho e estilos tão impressionantes quanto. Ao mesmo tempo é onde fica a gigantesca favela de Dharavi, uma das maiores do mundo, onde vivia Jamal Malik, o protagonista do filme Quem quer ser um milionário. Enquanto seu moderno porto movimenta 70% das cargas de todo o país, a cidade abriga o Dhobi Gat, um programa que vai fazer o viajante se sentir em uma cena de livro do fotógrafo Sebastião Salgado: trata-se de uma gigantesca lavanderia ao ar livre, onde até 10 mil homens podem trabalhar simultaneamente em imensos tonéis de concreto. Tão impressionante quanto, é a rede de templos escavados em rocha na ilha de Elephanta, com destaque para o Trimurti, a estátua de seis metros e três cabeças de Shiva representando seus três estados: criação, manutenção e destruição. É preciso encarar um trajeto de barco de hora e meia para chegar até lá, mas as cenas do embarque e desembarque _ que se faz saltando de um barco para o seguinte que estive encostado _ é outro momento daqueles que não se vê nem em documentário.

A cidade é também berço de uma lenda da hotelaria e do mundo dos negócios. E o nome por trás disso é o de um gigante que poucos brasileiros conhecem chamado Jamsetji Tata. Reverenciado em seu país como o pai da indústria, ele é o fundador do Grupo Tata, mais conhecido entre os brasileiros pelo lançamento, anos atrás, do “carro mais barato do mundo”, ou pela notícia da aquisição da Land Rover e da Jaguar, dois mitos da indústria automotiva britânica. Nas últimas décadas do século XIX, ele acumulou fortuna atuando em ramos diversos como exploração de ferro e carvão, construção de hidrelétricas e agropecuária. A coleção de arte que iniciou é o carro-chefe do acervo do Museu do Príncipe de Gales, em Mumbai. Mas, apesar de ser um dos homens mais ricos da Índia, eis que um belo dia Tata foi literalmente barrado na porta do tradicional Hotel Watson, onde se reunia a nata dos homens de negócios britânicos, reduto exclusivíssimo de ocidentais brancos. Indignado, disse que não só não pisaria mais ali, mas em resposta construiria o hotel mais luxuoso da Índia. Em dezembro de 1902 abria as portas o Taj Mahal Palace, primeiro hotel da hoje mundial rede Taj, em estratégica posição, debruçado sobre o Portal da Índia, um arco do triunfo de 26 metros de altura, construído em homenagem ao rei George V, e por onde marcharam as últimas tropas inglesas quando deixaram o país em 1947. O hotel é um monumento ao luxo e a sofisticação traduzido em 560 quartos, dos quais 44 suítes, atendidos por uma tropa de 1.500 funcionários, dos quais 35 mordomos exclusivos dos aposentos superiores.

shutterstock_320320550ba histórica fachada do Taj Mahal Palace

Por menos colorida _ e mais verde _ seja em relação ao badalado Norte do país, o Sul da Índia oferece preciosidades com a vantagem do número infinitamente menor de turistas americanos ou europeus. Essa escassez de gente rosa em bermudões com meias brancas torna ainda mais baratos os já conhecidamente baratos serviços indianos. Ou seja, se você não for um backpacker radical ou não quiser ter nenhum aborrecimento com algum motorista de tuktuk no meio do caminho, é muito fácil reservar antecipadamente hotéis, guias fluentes em inglês (ou até espanhol) e motoristas com carros realmente confortáveis. Lembre-se, é um outro mundo, e se quer saber você ainda não chegou nem perto do Norte. Com as bençãos de Shiva, o país conta com muitas empresas como a Amazing India Holydays que facilitam a vida do turista com serviços excelentes.

A duas horas de avião de Mumbai, Chennai (antiga Madras para quem curtia romances capa e espada estilo Emilio Salgari) é o pit stop obrigatório para a exploração do complexo de Mahabalipuram. Na capital do estado de Tamil Nadu, viveu e morreu o apóstolo São Tomé, aquele mesmo, do “ver pra crer”, e a igreja onde foi enterrado é não só um ponto de peregrinação para os religiosos, como uma interessante visita para conhecer o inusitado resultado estético da troca de figurinhas entre catolicismo e tradições indianas. Jesus Cristo aqui é representado pisando em flores de lotus, cercado de pavões, em explosões de cores que você só entende na totalidade ao vislumbrar o templo shivaísta de Kapaleeshwarar, uma imensa torre de mais de 30 metros completamente tomada por centenas de estátuas em cores vivas de personagens mitológicos.

O Sul da Índia é também famoso como centro de pesquisas de diversas terapias corporais. E como as próximas aventuras requerem uma certa disposição, é uma boa hora para repôr as energias e conhecer um pouco mais sobre essas técnicas milenares no Spa Jiva, do Taj Coramandel. É uma brincadeira para gente grande, do top da Rainha Elizabeth II ou do Imperador Akihito, do Japão. Com 212 quartos, sendo 11 suítes, o hotel oferece ainda um alívio para aqueles de estômago mais sensível que já cansaram de comer thali (o condimentadíssimo “combinado” de comidas indianas). Na verdade dois: o Prego, um restaurante italiano que vai fazer você se sentir como em uma cantina de Testaccio; e o Golden Dragon, um chinês de responsa onde o pato a pequim atinge nada menos que o estado da perfeição.

shutterstock_407205628estátuas esculpidas na rocha bruta em Mahabalipuram

Mahabalipuram, um dos patrimônios culturais da Unesco, fica a uma hora e meia de carro de Chennai. Logo na chegada não perca a tradicional foto na “bola de manteiga de Krishna”. Sim, o nome é estranho, mas se refere apenas a uma imensa pedra de cinco metros de diâmetro, parada de maneira bastante pouco usual no meio de uma pequena ribanceira. Diz a lenda que até elefantes já foram usados no passado na tentativa de movê-la do lugar sem sucesso. A “bola de manteiga” é vizinha do Templo dos Cinco Rathas, o principal da região. É um complexo de monumentos e estátuas de animais escavados em rocha bruta do século VI. Nenhum deles jamais foi concluído, porque o granito era muito mais duro do que imaginavam os escultores. A delicadeza dos entalhamentos é tamanha que durante séculos inspirou importantes escolas de desenho e arquitetura. Até hoje há quem acredite que há muito mais maravilhas ali enterradas do que conhecemos. A teoria foi reforçada em 2004, quando o tsunami que varreu o Oceano Índico “lambeu” toneladas de areia revelando um elefante e um leão de granito, além de inúmeras novas paredes de templos. Depois de ver esse tanto de estátua, permita-se um tempo para refrescar-se no Fisherman’s Cove, resortaço cinco estrelas construído sobre as ruínas de um forte holandês. Não deixe de sentar-se numa das cadeiras a beira-mar e peça o Chennai Pinneapple Rasam: drink que leva vodka, abacaxi, cardamomo, lima da persia… e é um tiro!

Nossa próxima parada é Cochin, no extremo sul da Índia. É uma cidadezinha colonial, assim meio Búzios, meio Paraty, caracterizada principalmente pelas milhares de redes de pesca chinesas que podem ser vistas por todos os lados na costa. É uma cidade onde, como ponto de partida para aventuras para imersões mais radicais na região, se veem muitos mochileiros ocidentais, lojinhas de camisetas e artesanato típico. Boleiros podem visitar o primeiro túmulo de Vasco da Gama. Mas o melhor é partir de uma vez para uma hospedagem no Kumarakom Lake Resort, cinco estrelas ayurvedico onde só se chega de barco. O ponto alto dos serviços é a oportunidade de se hospedar numa autêntica boat house, as típicas casa barco usadas pela população indiana que vive próxima aos grandes lagos da região de Kerala. De um a quatro quartos, e muito requisitadas para casais em lua de mel, as boat houses são as únicas acomodações que contam com televisão nos quartos, mordomo e chef particular a bordo. Quem preferir dormir em terra, tem nos chalés outra opção interessante. Todos são casas típicas da região, desmontadas e reconstruídas dentro do hotel.

Mas vamos combinar que nossos antepassados não atravessaram meio mundo de barco só para comer curry. Com a tomada de Constantinopla pelos turcos, eles realizaram a monumental façanha de se lançar ao mar desconhecido em barcos precários em busca das famosas especiarias. Em especial o “ouro negro”, a nossa boa e velha pimenta do reino que era usada moída para preservar carnes naqueles tempos pré Brastemps. No caminho de volta para o aeroporto de Cochin, reserve um tempo para hospedar-se no Spice Village, delicioso hotel construído de maneira semelhante a antigas vilas indianas, com hospedagem em casas rústicas, com telhado de palha, e mais todas as comodidades da vida moderna. O hotel oferece tours guiados a fazendas de especiarias, aulas de culinária kerala e massagens ayurvédicas. Quem acha tudo isso um saco pode ir ver tigres.

Porque a menos de 10 minutos de carro do Spice Village fica o santuário de vida selvagem mais popular do Sul da Índia, a Reserva de Tigres de Periyar. Consiste em uma área de 777 quilômetros quadrados, dotada de um lago de 26 quilômetros. Em uma ilha bem no meio dele os ingleses construíram um pequeno palácio para o rei de Travancore. Posteriormente a propriedade foi usada como residência de férias dos vice-reis britânicos e hoje abriga um hotel. Ao seu redor vivem cerca de 900 elefantes, 40 tigres, macacos de todos os tamanhos, javalis e bisões. É possível fazer um tour de barco de duas horas para tentar avistar os animais. Mas os passeios, populares entre a população local, costumam ser bem disputados.

No caminho de volta para o aeroporto de Cochin, o guia turístico Anoop Macko, ufanava-se do novo momento econômico de seu país. “Veja por exemplo Cochin, uma cidade pequena, já conta com o primeiro aeroporto que funciona 100% a energia solar”, orgulhava-se, mostrando as obras de expansão dos terminais de embarque e desembarque. Mas qual o segredo por trás do crescimento da Índia nos últimos tempos? “Investimento em inteligência digital e leis severas de transparência no poder público”, respondeu ele sem deixar de emendar um lamento, tão comum a boa parte dos nativos do terceiro mundo, sobre a maldição de sua classe política e a corrupção. “Olha as obras do nosso Metrô, por exemplo, começaram a três anos e só agora no fim do ano finalmente vão entregar”, diz, apontando os monotrilhos que ligam o aeroporto a vários bairros. Mas são quantas estações exatamente? “Vinte e três”. Quantas? “23”. A reportagem absteve-se de comentar.

 

 

Quem leva:

Orinter Tour & Travel

www.orinter.com.br

 

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