Peru Espiritual

Peru Espiritual

Peru Espiritual

Cidades tidas como “mágicas” ou “sagradas” existem aos montes pelo mundo afora. São de diferentes religiões, cores, tamanhos, algumas mais outras menos impressionantes, de acordo com o estilo e repertório do viajante. Machu Picchu diferente de quase todas elas, possui uma coisa especial e diferente, chamada …astral. Difícil de explicar, e mais raro ainda de encontrar. Você volta dali melhor. E uma daquelas experiência únicas da vida, que faz da cidade perdida dos incas o carro-chefe das muitas atrações do Peru (sem trocadilhos por favor) um dos destinos mais bacanas e badalados do momento. Esqueça aquele papo de aventura radical,  percursos em trens precários, trilhas de quilômetros debaixo de frio, chuva e soroche _ o “mal de atitude”, quando parece que você respira mas o ar não vem. Com o desenvolvimento econômico do país nos últimos anos o turismo se sofisticou, e é possível visitar hoje as ruínas de maneiras bem menos hippie, ou ao nosso jabuticabastyle.

Antes mesmo de chegar a base das montanhas você já tem duas opções irresistíveis para abrir o leque da viagem. A primeira é Lima, onde você obrigatoriamente terá de fazer conexão. Uma cidade que soube preservar sua belíssima arquitetura colonial; é tão limpa que algumas ruas do centro nem tem bueiros; e ainda oferece uma das melhores gastronomias do mundo. O ideal é ficar aqui pelo menos dois dias, porém muita gente prefere matar a visita enquanto o espera voo até Cusco. Mas vamos tratar de Lima em outro momento para não perder o foco agora e antes de chegar a Machu Picchu podermos falar propriamente da charmosa Cusco.

Só a aterrissagem em Cusco já te remete ao velho clichê do “valeu a viagem”. Ela fica numa espécie de vale em meio a montanhas altíssimas, que obrigam o avião a fazer ousadas manobras e curvas antes de apontar para a pista.  Do aeroporto ao centro histórico não se leva meia hora. A antiga capital dos incas, cujo nome em  quéchua (uma das línguas nativas) significa humildemente “umbigo do mundo”, foi fundada mil e cem anos atrás e destruída pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro em 1532. As paredes de granito do palácio e de várias outras edificações centenárias ainda estão por lá, como no Korikancha, o antigo templo do sol. Frades dominicanos construíram um convento em cima das fundações originais. Ele ruiu duas vezes, nos terremotos de 1650 e 1850, enquanto blocões de pedra escura continuaram no mesmo lugar. O local abriga hoje a Igreja de Santo Domingo.

Ao redor da Plaza de Armas ficam todos os principais hotéis e hostels. Tem camas para vários gostos. O mais bacanudo da parada é o Belmond Hotel Monasterio, que como o nome sugere foi adaptado de um antigo seminário do século XVII construído em arquitetura barroca. A diária aqui sai no barato por US$ 500, mas com café incluído. Uma dica especial é marcar aquele jantar esperto no El Tupay, o restaurante da casa que fica debruçado sobre pátios coloniais com uma romântica iluminação. Uma opção de hospedagem mais em conta e sem grilos é oferecida pela rede Tierra Vista, sem frescuras, com quartos na faixa dos US$ 100 e que já quebrou mais de uma vez os galhos desta humilde reportagem. O lance é ficar em torno da praça e fugir de bairros como San Blas, que o guia pode te empurrar como mais quentes à noite, mas implicam em encarar uma e outras ladeiras caso você resolva se  aventurar mais pela cidade.

Come-se muito, bem e relativamente barato em Cusco. Ceviches que não são apenas peixinhos cortados bem temperados, mas sao acompanhados  pelas mais saborosas combinações das trocentas variações possíveis de batatas que só existem no Peru. Restaurantes de nomes curiosos como o La Cicciolina, onde se oferece um arroz negro com polvo de tirar o chapéu. E o seu programa não estará completo sem provar a principal iguaria nativa: o cuy, ou porquinho-da-índia, roedor típico da Cordilheira dos Andes domesticado a mais de três mil anos atrás, que grelhadinho é um dos mais tradicionais pratos peruanos. É aquele bichinho fofinho sim, mas cuy é algo tão importante na região que durante períodos do império inca chegou a ser reservado apenas para as altas esferas da “nobreza”. Tão importante que a imensa representação da Última Ceia da  Catedral de Cusco, pintada no século XVII, mostra Jesus e os 12 apóstolos degustando um cuy peruano.

Procure pela Calle Amargura, levante a cabeça e suba a pequena escadaria que leva ao Kuskuy, restaurante do chef Luciano, um daqueles donos de restaurante boa praça que senta na mesa, puxa conversa e no fim ainda te oferece de cortesia uma dose de um pisco especial, porque esse sim, vai ajudar a digestão. A graça do kuy ao horno servido por aqui consiste na apresentação. Primeiro o  porquinho grelhado vem inteiro no prato, com maçãzinha na boca e tudo. Somente depois da selfie é que eles destrincham o bicho que vem acompanhado por molhos, pimentao assado e as tradicionais batatas peruanas. O sabor, ok, esqueça do bichinho fofinho, lembra um pouco galinha, meio assim, puxada prum coelho. Desce bem, ainda mais com o pisco sour daqui.

A noite em Cusco começa no Museu do Pisco, que ao contrário do que o nome propõe é na verdade apenas um bar mesmo.  Tem, por suposto, uma ampla variedade de opções do destilado de vinho e promove degustações especiais para turistas. Mas em torno da praça é que o bicho pega nos barzinhos, restaurantes e hostels. No coração da plaza, em volta da estátua de Pachacútec, uma rapaziada esperta fornece, sem grilos, especiarias que depois perfumam as vielas em torno das igrejas. O fim de noite tradicional é tomar uma saideira no Paddy’s, pub irlandês que se orgulha de ser o pub irlandês mais alto do mundo.

Mas a conversa era sobre uma viagem espiritual não é mesmo?

Antes de chegar a Machu Picchu, é legal fazer uma espécie de “esquenta” pelo Vale Sagrado, a região dos sítios históricos ao longo do rio Urubamba, para ir se preparando para o que vai ver quando chegar lá. É super simples e a maior parte dos lugares de visitação é perto de Cusco. A cada esquina nas ruas que dão na praça há uma agência vendendo os mais tipos de tours _existe até mesmo as  “ayusca experiences”, experiências de tours  regados com o chá conhecido por aqui como Santo Daime. Para entrar em cada parada do Vale, é necessário um bilhete turístico, á venda (adivinha?) ao lado da Plaza de Armas. Existem diferentes preços, dependendo do número de lugares a visitar, mas o pacote completo sai em torno de cem reais, vale por 10 dias e dá direito a conhecer dezesseis diferentes construções ou museus.

A primeira parada dos guias no Vale Sagrado costuma ser a Igreja de Chinchero, construída em 1600 pelos espanhóis sobre um templo inca. A região é conhecida pela produção de tecidos peruanos, e  pelas ruas artesões mostram como se produz lã de ovelha ou alpaca. A visita vale ainda pelo belíssimo forro da igreja, pintado há mais de 500 anos (onde fotos são proibidas) e pela chance de comprar um colorido gorro de lã típico dos nativos, com o nome da cidade escrito, para dar de presente praquele sobrinho que só anda ouvindo Bob Marley no Spotify.

Em Maray, um baita exemplo da engenhosidade inca. Diferentes níveis de terraços circulares foram esculpidos em uma espécie de grandes tigelas de terra. Cada uma dessas camadas possui um microclima, de acordo com sua profundidade. Os nativos usavam esses terraços como laboratório, para determinar as condições ideais de diversos tipos de cultivos. Outro point surreal são as Salinas de Maray, na verdade uma imensa encosta formadas por milhares de pequenas piscinas de sal, usadas para extração desde o tempo do império. Elas são alimentadas por um rio de águas quentes, que escorre pelas montanhas.

Para os que interessam por aspectos mais práticos da cultura inca e do seu choque com a cultura europeia, o passeio pelo Vale Sagrado oferece interessantes opções. “Aqui foi o local da maior vitória contra os espanhóis durante a Revolução Inca”, diz Esteban Alegria, o Nosso Guia, mostrando os imensos degraus a cidade-fortificada de  Ollantaytambo. Aqui, em 1537, mais de 30 mil guerreiros liderados por Mancu Inca enfrentaram uma coalização de tribos rivais lideradas pelo próprio conquistador Francisco Pizarro  a frente de 100 cavaleiros espanhóis. Pizarro foi obrigado a retirar-se em busca de mais reforços, o que deu tempo a Mancu Inca de infiltrar-se nas florestas, prolongando a rebelião. Depois de Ollantaytambo, o segundo ponto mais famoso do Vale Sagrado é o sítio de Pisac. Até hoje historiadores divergem quanto ao real motivo da construção da cidade. Grande parte acredita que ela foi erguida como fortaleza mesmo, com base nos muros e nos vários os pontos de observação. No entanto, no local havia grande espaço para plantações,  um cemitério inca assim como templos e locais para rituais religiosos, o que gera a tese de que ela seria na verdade um refúgio especial.

Devidamente aclimatado, hora de pegar o trem para Machu Picchu.  Dá pra chegar até lá pelas trilhas, mediante autorização prévia das autoridades e apenas acompanhado de um guia. Mas o trem sem sombra de dúvida é a opção mais bacana. Três companhias oferecem o trajeto (Vistadome, Hiram Bingham e a Inca Rail) que dura quatro horas e parte duas estações: Poroy a cerca de uns 25 minutos do centro de Cusco, ou de Ollantaytambo a cerca de 1 hora e meia. É preciso chegar na estação as 5h30, mas as 9h serve-se um café a bordo. Nos trens da Hiram Bingham existe a possibilidade de reservar um assento em primeira-classe, com mais servicos, champã ao longo do trajeto e a moleza de sair as 9h, tudo pela brincadeira de US$ 640. O motivo da saída dos trens tão cedo é para organizar o grande fluxo de turistas.  Muitos optam por ir e voltar para Cusco no mesmo dia, já que de Águas Calientes até Machu Picchu são apenas mais 20 minutos de micro-ônibus _ fora a fila.

Águas Calientes, também conhecida como Machu Picchu Village, não passa de uma estação de trem cercada de hostels por todos os lados. A cidade mais próxima do sítio arqueológico é um amontoado de pizzarias, pequenos restaurantes típicos meio mequetrefes, mochileiros de todos os cantos com bastões de caminhada e aposentados canadenses. Faz pensar. O jeito é partir para opções talvez um pouco mais profanas de curtir sua experiência mística. Em Águas Calientes elas não são muitas, mas como tudo por aqui são de cair o queixo.

A mais manjada delas é hospedar-se no Belmon Sanctuary Lodge, que é simplesmente vizinho à entrada do parque. Os hóspedes tem direito inclusive a entrar antes e sair depois que os turistas em geral deixam a cidade perdida.

O hotel conta com apenas 31 apartamentos e diárias a partir de mil dólares, dependendo da estação. Outra opção, mais contemporânea, é reservar um quarto no Sumaq, o único cinco estrelas localizado no caminho que conduz ao Santuário Histórico ou a  10 minutos de distância da estação de trem.

O Sumaq propõe uma imersão na cultura inca com estilo. Cada andar tem uma decoração que evoca um dos  quatro elementos da natureza (ar, terra, fogo e água) inspirada na chakana, a cruz andina de quatro pontos. Os quartos combinam madeiras escuras com móveis de tecido. As televisões são enormes, o conteúdo do minibar é gratuito e a máquina de café é moderna e fácil de operar. Há também uma seleção de chás frescos, em vez de simplesmente uma caixa com saquinhos  de chá baratos. Os quartos voltados para o rio tem vista _ e um barulhinho _ sensacional.

Além de um pouso quentinho e confortável, o Sumaq oferece aos hóspedes gastronomia de primeira, aulas do idioma quechua, e sobre como fazer ceviche e pisco sour, spa onde são oferecida massagens com pedras andinas, e as interações com os xamãs, como são chamados os sacerdotes andinos.  No Sumaq você pode se inscrever para participar de um ritual chamado “Pagamento à Terra”, uma cerimônia de agradecimento a Pachamama (ou a Mãe Terra) que visa reequilibrar energeticamente os participantes.  Durante o ritual, o xamã orienta os convidados a compartilhar suas mais profundas aspirações pessoais com os Apus (seres sagrados da montanha) soprando folhas de coca e fazendo pequenas ofertas de cereais, ervas, doces, ou pedaços lãs andinas. Quando a oferta está completa, é abençoada e queimada, para ser transformada por Pachamama e gerar um novo ciclo.

Machu Picchu ocupa todo o topo da montanha de mesmo nome, a 2.350 m de altitude. Alguns estudiosos afirmam que era um local secreto para cultos religiosos. Outros, que a montanha integrava uma rota sagrada até o lago Titicaca, berço da civilização inca. Alguns especialistas afirmam ainda que teria sido uma espécie de centro de estudos de astronomia. Afinal, a construção teria levado em conta critérios astronômicos e ritualísticos, como no alinhamento de alguns edifícios mais importantes. No Templo do Sol, no inverno, a alvorada surge exatamente por uma fresta das montanhas iluminando a janela do templo. No verão, ele nasce pela Porta do Sol, por onde se chega pela famosa Trilha Inca. Cerca de 1,2 mil pessoas moraram aqui. Eles ocupavam uma área de 106 mil metros quadrados dividida em 250 níveis (40 só na área urbana) e 172 casas, tempos e armazéns.  A água chegava graças a um canal de 749 m ligado a uma nascente que alimentava 16 fontes interligadas e os terraços para plantações.

Dedique um dia inteiro a se perder pela cidade. Bastões de caminhada não só item de estilo entre a galera do footing em Aguas Calientes, são fundamentais na hora de subir e descer os diferentes níveis. Tome degrau.  Para se ter uma idéia das distâncias, leva-se uma hora e meia, duas horas da entrada do parque até a Porta do Sol. De lá, outro tanto para se chegar até a Ponte de Pedra, local por onde (diz a lenda) os últimos habitantes da cidade a teriam abandonado. É um caminho estreito e bem ao lado de um abismo. A ponte na verdade é um buraco nessa trilha de pedra originalmente coberto por uma, aí sim, ponte de troncos. Quando o último inca deixou a cidade, teria derrubado os troncos, impedindo assim qualquer inimigo de perseguir os habitantes.

No meio da Plaza Sagrada, uma pedra em forma de losango funciona como uma bússola perfeita. Os guias incentivam os turistas a colocarem os celulares com os aplicativos de bússola ativados sobre a pedra para ver como o alinhamento é perfeito. Dali começa também a trilha para a montanha de Huayna Picchu, o pico que sempre se vê nas fotos, 330 metros acima da cidade. A caminhada é íngreme, e apenas 400 pessoas podem subir por dia. Além dos três templos do topo, vale a pena ver como efetivamente funcionavam as grutas usadas pelos incas como armazéns. Esculpidas nas rochas, elas eram “refrigeradas” pelos ventos gelados que sopram pelas montanhas.

Não existem mais incas hoje em dia. Oficialmente eles foram extintos no século XVI. Segundo os estudiosos, somente nos primeiros 20 anos da invasão espanhola um terço da população morreu apenas de varíola _ no talvez primeiro e maior ataque de guerra bacteriológica do planeta. Os poucos sobreviventes foram catequisados pelos missionários católicos e aos poucos foram deixando seus costumes originais. A “cidade perdida” só foi redescoberta em 1911, pelo professor americano Hiram Bingham, à frente de uma expedição patrocinada pela Universidade Yale pela National Geographic Society, que publicou as imagens da descoberta em uma edição histórica de sua revista em 1913. Até hoje não há uma conclusão definitiva sobre o que era ou para que ela servia, e porque no fim das contas foi abandonada.

Para alguns moradores dos seus arredores, o fascínio por Machu Picchu na verdade é fácil explicar. E ele está diretamente ligado aos grandes e famosos blocos de pedra. Segundo eles, os incas acreditavam que certas pedras possuíam energias especiais. Daí a cidade ter sido toda construída em granito claro. Além de clarear com o passar do tempo, a rocha teria a capacidade de concentrar energia para os habitantes. Assim, a ação da erosão e das chuvas faria um dia de Machu Picchu uma cidade de pedra branca, evoluída e energizada por sua conexão com a Natureza.

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