Não se pode ficar melhor que isso

Não se pode ficar melhor que isso

Não se pode ficar melhor que isso

“Oportunidade. Cobertura à venda. Quadriplex. Vista privilegiada para a Baía de Mônaco. Indevassável. Piscina com tobogã no terraço. Academia. Cinco amplos quartos. Adega privativa. Escritório. Biblioteca. Varanda gourmet. Vagas na escritura. Três mil e trezentos metros quadrados de área útil. Comércio próximo. Trezentos e oitenta e sete milhões de euros. Não aceitamos propostas.”

 

Parece loucura? O classificado acima é naturalmente uma brincadeira, mas a tal cobertura existe sim, e é hoje apenas o apartamento mais caro à venda no mundo. Fica na Avenue de l’Annonciade, no topo da torre Tour Odeon, em Mônaco, o minúsculo país de apenas 2 quilômetros de território (área menor do que a dos bairros de Ipanema ou Higienópolis) que possui a maior concentração de milionários por metro quadrado do mundo. Hoje nada menos que 29% da população local possui uma conta bancária com pelo menos 1 milhão de euros. Isso mesmo, um em cada três habitantes dessa curiosa cidade-estado que se tornou uma espécie de meca do luxo e da sofisticação europeias.

 

“Não se pode ficar melhor do que isso”, resume Nicole Kidman no papel da Princesa Grace, em uma cena do açucarado Grace de Monaco lançado no ano passado (com o sempre ótimo Tim Roth no papel do Príncipe Rainier). O filme retrata um momento de crise entre o casal real: entediada com a vida de luxos e futilidades monegascos Grace recebe um convite de Alfred Hitchcock para voltar a filmar em Hollywood justamente quando Rainier precisa enfrentar o presidente francês Charles de Gaulle, que ameaça invadir o principado caso Monaco não pague impostos à França. Spoilers novelescos a parte, o fato é que, no fim das contas, o país continuou um paraíso fiscal, menos para os americanos e para os franceses, que hoje pagam uma taxação de cerca de 15%, o que ainda é razoável considerando o caso de grandes fortunas na França onde a mordida pode chegar a 75%!

 

Para muitos, é essa história de paraíso fiscal centenário que explica por que tanta gente nababescamente endinheirada escolhe Mônaco como seu lugar ao sol. Em parte é verdade, mas é preciso entender outros fatores. O primeiro é a segurança: há um policial para cada cinco habitantes, além do mais completo e sofisticado sistema de monitoramento por câmeras de segurança de toda a Europa. Você nem vê as câmeras nas ruas, mas, tenha certeza, elas estão lá. Outro quesito importantíssimo é a proibição dos papparazi. Sim, para fotografar em Mônaco com equipamento profissional você precisa pedir uma autorização ao governo. E aí já começa a ser feita a triagem. Se alguém for visto sacando uma lente enorme no meio da rua, imediatamente é abordado pela polícia. Você pode tentar a sorte, mas lembre que, com a polícia daqui, o azar é certo.

 

Com gente de 125 países diferentes Mônaco, dizem os entendidos, é puro network. O Aeroporto de Nice, bem ali do lado, liga o principado às principais capitais europeias. Só para a Inglaterra partem 15 voos diários. Fica a 45 minutos de carro ou cerca de 10 de helicóptero. Empresas como a Heli Air fazem mais de 50 voos diários entre as duas cidades com direito a traslado para os hotéis. A vista do passeio é uma emoção especial, mas chegar dirigindo também tem seus atrativos. Principalmente se você reservar no aeroporto um Bentley ou uma Ferrari – afinal, aqui, Porsche Cayenne é Corsa.

 

Monaco tem hotéis para todos os lados e quase todos os bolsos, mas para uma estada realmente especial não existe outro que não o mítico Hôtel de Paris, que completou 150 anos em 2014. Não exatamente nesse momento, porque o hotel fechou para uma ampla reforma este mês e reabre as portas somente em setembro de 2018. Mas calma que nem tudo está perdido. Quem faz as honras enquanto isso, com o mesmo garbo e sofisticação, é seu coirmão, o não menos famoso Hotel Hermitage, ambos administrados pela Societé des Bains de Mér de Mônaco.

 

Uma adega subterrânea sob a praça liga os dois hotéis, e visitá-la é um must go na cidade mesmo para você que não acha nenhuma graça nessas conversas estranhas desse pessoal que cheira rolha. São 400 mil garrafas (78% Bourbon) espalhadas por mais de 1 quilômetro de prateleiras. Garrafas de conhaque de 1793, Petrus 1982 por 12 mil euros na carta, além de estantes e mais estantes com safras variadas de Chateaux Margaux, Mouton-Rotschild, Lafite, tudo na faixa ali dos 3 mil eurinhos para atender ao seu mais dionisíaco devaneio. Há um museu com garrafas especialíssimas que só podem ser sacadas por ordem do Príncipe Albert II – a última que saiu dali foi um presente para o príncipe Charles, da Inglaterra, por ocasião do nascimento do seu primeiro neto.

 

Construído entre 1890 e 1896 com um certo Gustave Eiffel dando pitacos no projeto – sua assinatura fica clara na decoração do lobby de acesso ao salão do café da manhã – o Hermitage é um verdadeiro monumento a Belle Epoque. O hotel conta com 278 quartos, 25 suítes, 52 suítes júnior e nove exclusivérrimas, todas com vista para o porto. Os quartos são amplos e confortáveis, com amenities Bulgari e macarons da Ladurée sobre a cama na volta dos passeios. O serviço é simplesmente impecável. O Hermitage é endereço também do espetacular restaurante Vistamar, uma estrela Michelin, onde peixe bem-feito é mais do que uma arte. Falando em endereço, o hotel literalmente envolve o apartamento de 1.600 m2, cinco suítes e jardim com árvores de 5 metros de altura onde morreu o banqueiro Edmond Safra. Ele pertence hoje ao bilionário russo Dmitry Rybolovlev, também dono do Monaco, time com sete títulos no campeonato francês de futebol. Ele teria pago pelo imóvel uma besteira de R$ 526 milhões.

 

Uma outra passagem subterrânea liga o Hermitage diretamente às Thermes Marins, centro pioneiro criado em 1890 por especialistas em talassoterapia, hoje totalmente reformulado, oferecendo os mais modernos e revigorantes tratamentos imagináveis. A mais recente novidade é um tratamento que consiste em passar três minutos numa câmara a -110 graus. O efeito é antiestressante e indicado para recuperação de jetlag, dores musculares e inflamações variadas. Nossa reportagem – que tudo o que tem deve ao Jornalismo: calvície, uma conta no vermelho e tendinite – encarou a experiência. O resultado é bem mais interessante que parece supor. É como sentir hiper-potencializados os efeitos de um banho gelado num dia de calorão. Antes da saída, passe no L’Hirondelle, restaurante do chef Jacky Oberti. Casado com uma brasileira, ele criou uma sobremesa dos sonhos. Quando chega à mesa parece uma simples manga cortada, cercada por chocolate em pó, fazendo o desenho da bandeira do Brasil. Na verdade, o doce é mais interessante. Ele retira primeiro a polpa da fruta, deixando a casca inteirinha. Depois forra o fundo com chocolate suíço meioamargo e cobre tudo com mousse de manga. É divino… e o Jacky jura que não engorda!

 

Saindo das Thermes Marins e subindo menos de cinco minutos a Avenue de Monte-Carlo você chega à praça do Cassino, cercada, além do próprio, pelo Hôtel de Paris e pelo Café de Paris – onde eles dizem que foi inventada a Crêpe Suzette. Um dos mais glamorosos e bem frequentados cassinos do mundo, o Le Cassino é uma visita obrigatória. Uma sala é mais exuberante do que a outra, e é difícil até reparar nas máquinas diante do luxo dos móveis e da beleza das pinturas, invariavelmente cenas primaveris com mulheres sensuais e mascaradas. Das 80 roletas, 30 estão lá desde a inauguração. Pesam 32 quilos só a parte central, com os números feitos de três tipos diferentes de madeiras. Entender a história do Cassino é outro aspecto fundamental para entender Mônaco.

 

Se há uma razão para a família Grimaldi permanecer no trono desde 1297 enquanto a grande maioria das outras famílias reais europeias dançaram, é porque simplesmente ninguém dava muita bola praquele rochedo. Monaco era um país pobre até o século 19. Quando o Cassino foi aberto, em 1863 (seguido pelo Hotel de Paris 10 anos depois), e o país começou a praticar a sugestiva arte de não cobrar impostos de estrangeiros, estes começaram a vir de todos os cantos, gastando fortunas como se não houvesse amanhã. Era tanto dinheiro que o então príncipe Albert I, pôde construir em 1910 o impressionante Museu Oceanográfico de Mônaco, instituição referência internacional neste setor, que teve durante muitos anos como diretor o conhecido pesquisador Jacques Cousteau. São quatro andares com exposições abertas aos visitantes e outros nove que vão descendo até o nível do mar, exclusivos para estudos científicos.

 

O museu fica no belíssimo bairro histórico da cidade, chamado Monaco-Ville, ou Les Roches. Suas ruelas são cheias de lojinhas de lembranças – todos os cacarecos ligados ao GP de Fórmula 1 que você possa imaginar – e restaurantes de comida monegasca. Os guias e nativos vão sugerir que você programe seu passeio nessa região pela manhã para não perder a troca da guarda em frente ao palácio do príncipe, diariamente às 11h55. Mas, francamente, guarde sua paciência com esse tipo de evento para o empurra-empurra, digamos, de Londres. O “evento” não dura cinco minutos e o país não é necessariamente conhecido pelo seu poderio militar. Aproveite que os turistas ficaram na Place du Palais para ir até a Catedral prestar seus respeitos diante do túmulo da princesa Grace.

 

Em diversos pontos de Monaco-Ville há marcos que se referem a passagens da vida da princesa – até as latas de Coca-Cola Zero têm todas só um nome escrito: princess. São 27 no total pela cidade. Grace é o exemplo maior do extremo bom-gosto e sagacidade de Rainier III, que nos anos 40 usou o dinheiro que dava sopa no principado para investir pesadamente em negócios imobiliários e na expansão do turismo. Com isso, hoje o Cassino que durante anos segurou as pontas representa apenas 4% da arrecadação do principado, que por outro lado é sede de mais de 200 empresas de construção civil.

 

Recentemente o Príncipe Albert II disse que “Mônaco é um sonho, e como tal deve permanecer no coração das pessoas”. É aquela imagem mítica dos bailes de gala de Monte Carlo, James Bond batendo pegas de Aston Martin em estradas de curvas insinuantes, onde hoje você vai a boates como o Jimmy’Z, Sass Cafe ou ao Buda Bar ver as modelos russas que passaram o dia dando pinta na piscina das Thermes Marins. Façam seu jogo, senhoras e senhores.

 

 

*Publicado originalmente em Top Destinos

 

 

 

 

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