Jamaica: de James Bond a Bob Marley

Jamaica: de James Bond a Bob Marley

Jamaica: de James Bond a Bob Marley

Privilégio. Dentre as mais antigas recordações de infância de Chris Blackwell (produtor e empresário responsável pela carreira de nomes como Bob Marley, U2, Tom Waits, B-52s e Jethro Tull, entre muitos outros) estão as manhãs em que assistia aos empregados de sua família carregando navios com bananas na praia de Oracabessa, na Jamaica, enquanto cantavam uma velha canção de Harry Belafonte, Underneath the Mango Tree.  Anos mais tarde, Chris escolheria essa música para ser cantada por Ursula Andrews na cena em que ela sai do mar, exatamente nessa mesmíssima praia, em uma das mais antológicas da série 007 – e a única em todos os filmes em que o agente de sua majestade aparece cantando. Esse pequeno trecho de areia na talvez mais conhecida das ilhas do Caribe guarda outras muitas outras relações entre o espião com licença para matar e a explosão mundial da música jamaicana. Durante cinco dias, nossa reportagem teve outro privilégio: ouvir essas histórias contadas pelo próprio Chris Blackwell para esta edição especial que celebra também os 70 anos de nascimento de Bob Marley.

Criador de James Bond, o inglês Ian Fleming conheceu a Jamaica durante a Segunda Guerra Mundial, quando atuava como oficial de inteligência para a Marinha Britânica, pescando submarinos nazistas. Em 1948 mudou-se para a ilha e em pouco tempo envolveu-se com Blanche Lindo, locomotiva da alta sociedade jamaicana da época e mãe de Chris Blackwell, que acabara de se divorciar. Mais tarde ela seria a inspiração de outro personagem clássico da mitologia bondian: a vilã Pussy Galore. Fleming comprou de Blanche um pedaço de sua fazenda em Oracabessa e construiu um refúgio ao qual deu o nome de “Goldeneye”. Ali escreveu as 14 aventuras de Bond. Nos anos seguintes o lugar viraria point de escritores, artistas e estrelas de Hollywood, como Katherine Hepburn, Laurence Olivier, Truman Capote e Lucien Freud. O famoso dramaturgo inglês Noel Coward ficou tão apaixonado por Goldeneye que acabou criando ao lado um outro paraíso na terra, Firefly, de onde se tem uma das mais incríveis vistas de Saint Marys Bay.

No fim dos anos 50, com 10 mil libras emprestadas de sua mãe Chris Blackwell abriu em Kingston uma pequena gravadora que viria a se tornar o mito Island Records. O começo não foi fácil, mas ele até emplacou um sucesso: Boogie in My Bones. Em 1961 começaram as filmagens de Dr No, primeira adaptação de 007 para o cinema, e, preocupados com o futuro do rapaz, Fleming e Blanche descolaram para ele um emprego de assistente da produção. Chris encheu o filme de referências a Oracabessa e Goldeneye, que aparecem em diversas sequências além da clássica saída do mar de Ursula Andrews. Ele acabou convidado a seguir carreira em Hollywood mas, por orientação de um guru, resolveu seguir a carreira musical. Em 1964 emplacou o hit My Boy Lollipop, considerado um dos primeiros skas a serem gravados, se tornou um nome na emergente cena musical jamaicana. No início dos anos 70, conheceu um jovem artista chamado Robert Nesta Marley. O resto você já conhece.

Após a morte por overdose de drogas de Caspar, único herdeiro de Ian Fleming, em 1975, Blackwell readquiriu Goldeneye. “Inicialmente eu estava negociando a compra para o Bob Marley, mas ele acabou desistindo. Pensei em morar aqui, mas nunca consegui realizar isso efetivamente, vivia emprestando para os amigos. Comecei então a perceber que ele poderia funcionar muito mais como uma espécie de centro de lazer”, conta Blackwell. A propriedade é uma das quatro que integram o cardápio do grupo Island Outposts, fundado por ele para incrementar o turismo na Jamaica.

Uma dica para chegar a Goldeneye é desembarcar em Kingston – a Copa Air tem voos diários com conexão na cidade do Panamá – e atravessar as montanhas de carro para conhecer a verdadeira Jamaica que se espalha além dos resorts. O hotel oferece transfers com motoristas que ao longo do caminho param na estrada para degustação de alguns pratos típicos locais, como a sopa de abóbora inflamavelmente apimentada ou jerk chicken, frango marinado em especiarias que o deixam com uma cor e sabor maravilhosos.

Goldeneye é uma locação mágica, repleta de atividades aquáticas, serviço cinco estrelas e um wi-fi padrão Silicon Valley. São três opções de hospedagagem. Você pode optar pelas villas voltadas para a lagoa de águas absolutamente transparentes, cada uma delas com um deck que convida para o mergulho. Ou ficar em frente a Low Cay Beach, onde os quartos vão redefinir seu conceito do que é pé na areia. Ambas opções contam com chuveiros do lado externo das casas – devidamente protegidos por cercas de madeira, fiquem tranquilos. Finalmente, você pode escolher um dos três quartos da residência original de Ian Fleming. A decoração da casa é simples e elegante, e um café da manhã embaixo das árvores que ficam em frente ao antigo quarto do escritor, uma experiência que já vale a viagem. “Gosto quando as pessoas me dizem: estava olhando o cara da mesa do lado achando que o conhecia até que me dei conta de que era o Prince!”, diverte-se Chris. Keith Richards, Johnny Depp, e a modelo Kate Moss estão entre outros habitués do pedaço.

Mas se Goldeneye não está parecendo, digamos, exclusivo o suficiente, existe a possibilidade de conhecer uma Jamaica bem diferente da imagem tradicional dos resorts à beira-mar, em outra das incríveis propriedades de Chris Blackwell. Há dois anos, a sociedade jamaicana ferveu quando ele anunciou que abriria ao distinto (e põe distinto nisso) público a fazenda de Pantrepant, mantida por ele durante anos como um refúgio para amigos como Bono, Grace Jones ou a família Marley. “Eu na verdade comprei a árvore, o resto veio no pacote”, diz ele mostrando o gigantesco guango que fica ao lado da sede da fazenda e dá à propriedade um ar assim meio parecido com a Tara de …E o Vento Levou.

Pantrepant foi originalmente uma usina de cana-de-açúcar, fundada em 1754 em um vale de Cockpit Country, região dos “maroons”, espécie de quilombolas locais, no coração da Jamaica. As ruínas da antiga construção ainda estão por lá e são utilizadas até hoje: salão como local para refeições ao ar livre, e o antigo poço onde se juntava o melaço é hoje uma piscina de águas naturais. A fazenda conta apenas dois quartos em uma casa separada e todo o serviço é realizado por empregadas em vestidinhos de chita colorida. À noite, o silêncio é quebrado apenas pelo som dos sapos e dos grilos. Totalmente orgânica, a fazenda abastece as cozinhas de todas as propriedades do grupo Island Outposts.

Mas o mais importante mesmo é que Panteprant é a morada de Lion, um rastafári legítimo, tão perfeito, mas tão perfeito, que dá a sensação de que ele é na verdade um ator disfarçado. Supostamente ele vive pelas matas da fazenda, sem residência fixa, vivendo do que encontra ou planta. “É nosso melhor empregado sem sê-lo. Você imagina melhor segurança do que um que vive andando por aí para cima e para baixo?”, explica a gerente Mareeka Kessler. De vez em quando Lion aparece na sede, levando um coco dulcíssimo para Mr B (como os empregados chamam Blackwell), ou sempre disposto a ajudar algum hóspede a encontrar um remédio que alivie a pressão.

Porque, afinal, como se sabe, os rastafáris seguem uma crença que surguiu no Caribe nos anos 30 e que foi mundialmente popularizada pelas músicas de Bob Marley e alguns aspectos curiosos. Seus seguidores se vestem de maneira especial, não cortam cabelo ou aparam a barba, seguem uma dieta quase vegetariana e – principalmente – usam maconha em rituais para falar com Deus (Jah). O dialeto rasta é quase incompreensível. “O importante é você pegar o espírito, o resto é detalhe”, explica Blackwell. Como muitos jamaicanos usam dreadlocks (as tranças típicas dos rastas), a impressão que se tem é de que a religião é muito mais disseminada do que é de fato. Na realidade, apenas 24 mil dos 2,7 milhões de jamaicanos se afirmam rastafáris.

E uma outra surpresa, ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, a maconha não é legalizada na Jamaica. Não que isso importe muito. Por todos os lados você verá nativos e turistas fumando cigarrões imensos. Por US$ 5, qualquer motorista de taxi consegue fornecer cerca de 20 gramas do chamado “homegrown” que fazia a cabeça de Bob Marley. “Estamos caminhando para a legalização, mas o que temos hoje é apenas um relaxamento da proibição”, explica o policial John Hattway. “Na prática, isso significa que, ao menos que você esteja traficando, ninguém vai prender você. Não queremos matar nosso turismo”, brinca ele. Jamaica, como se vê, é no problem, man.

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