Holiday in Camboja

Holiday in Camboja

Holiday in Camboja

Tragédia é pouco para resumir tudo o que se passou na história do Reino do Camboja. Endereço de alguns dos templos mais fantásticos do planeta, com cenários dignos de videogames de Lara Croft, um dos povos mais sorridentes do planeta e uma gastronomia única _ que vai dos espetinhos de escorpião às pizzas mais felizes que você já provou na vida _, o país, assim como o poeta, foi ao inferno e voltou, após sobreviver a uma das mais sanguinárias ditaduras de todos os tempos. Hoje, os cambojanos tentam virar a página do seu passado tenebroso e apostam com tudo nos dólares dos turistas que de todos os cantos chegam a cada dia em maior quantidade, consolidando o país como um dos mais disputados destinos da atualidade no Sudeste Asiático.

Para buscar entender tudo o que Camboja guarda de complexo, terrível e fascinante é preciso voltar um pouquinho no tempo. A chapa já vinha quente na região desde a Segunda Guerra Mundial. Guerras contra invasores japoneses, franceses e até com americanos já haviam deixado cicatrizes e grandes bombardeios país afora, mas o caldo entornou pra valer em 1975, quando a organização comunista Khmer Vermelho tomou o poder. Seu principal líder, Pol Pot (abreviação de potencial político em inglês) assumiu o governo afirmando que todas as revoluções socialistas do mundo haviam fracassado, mas que os cambojanos fariam diferente. Decretou ano zero e mandou dar um reboot no país. Todas as cidades foram evacuadas e seus habitantes enviados para trabalhar em campos de arroz. A ideia de começar tudo novo, de novo, era tão absurdamente radical que 90% da população alfabetizada do país foi simplesmente exterminada.

Claro que deu tudo errado. E quanto mais o bolo desandava, mais o Khmer Vermelho matava opositores às dúzias. Nunca se pôde afirmar exatamente quantas pessoas foram mortas, porque o regime simplesmente queimou os registros oficiais mais elementares. Haviam métodos tão cruéis que só podem ser comparados ao horror nazista. Nos Campos de Extermínio, os killing fields, os mortos eram enterrados de forma que seus restos mortais decompostos servissem de adubo para as plantações de arroz. Alguns destes verdadeiros abatedouros estão abertos à visitação e são marcados pelas enormes torres que servem de mausoléu para as vítimas. A experiência é meio parecida com a de visitar um antigo campo de concentração na Alemanha. Muito cuidado ao se afastar para tirar fotos durante uma visita. É que boa parte destas áreas era protegida de ataques por minas explosivas, e a ONU até hoje não conseguiu limpar todas elas. Em 1979, após forte pressão internacional, as Nações Unidas pediram ao Vietnã  para invadir o Camboja e derrubar o Khmer Vermelho. As negociações de paz se arrastaram até meados dos anos 90 quando, desmoralizados, os últimos soldados de Pol Pot finalmente abandonaram as armas. O ditador morreu em 1998, supostamente de ataque cardíaco, sem jamais ter sido julgado como genocida. Mas o estrago estava feito. Até  os dias de hoje é difícil encontrar cabelos brancos pelas ruas, e o país carece de técnicos especializados nas mais diversas áreas. Quem quiser saber mais sobre o horror do Khmer Vermelho tem uma boa opção no filme vencedor de 3 Oscar Os gritos do silêncio, disponível na Netflix.

mausoléu para as vítimas do Khmer Vermelho em um dos campos de extermínio

Pesado né? E ainda mais impressionante quando o viajante mergulha ainda mais fundo na história e na cultura do país. A cidade de Siam Reap é o ponto de partida para uma aventura rumo aos impressionantes templos cambojanos como Angkor Phom, Ta Prohm – conhecido pelas cenas de Angelina Jolie no filme Tomb Raider – e Angkor Wat, o maior complexo religioso do mundo, construído no século 12 pelo rei Suryavarnan II.

Quatro vezes maior do que o Vaticano, Angkor Wat é uma rede intrincada de templos, largas avenidas e sofisticadas obras de engenharia que lhe valeram o apelido de “Atlântida na Selva”. Possui painéis de mais de 600 metros de extensão com baixos-relevos contando passagens do épico hindu Mahabarata, e mais de 2 mil apsaras, dançarinas celestiais entalhadas na pedra. Seu projeto se baseia numa mandala cósmica e é todo protegido por um fosso de 200 metros. Muito provavelmente você será recomendado a visita-lo ao nascer do sol, que irrompe por trás das torres. Nesta hora centenas de turistas estarão se acotovelavam em frente ao lago em busca do melhor ângulo para suas fotos. Se você não tem a fotografia como profissão ou hobby, largue essa turma para trás e aproveite para explorar os corredores enquanto ainda estão vazios.

cambodia-siem-reap-angkor-wat-at-sunriseAngkor Wat

Se Angkor Wat é um complexo religioso, Angkor Thom impressiona como projeto de cidade fortificada. As muralhas se estendem por mais de 12 quilômetros, e protegiam uma população estimada em mais de 1 milhão de habitantes. Seus templos, como Baphuon ou Phimeanakas, certamente não estão entre os mais bem conservados do pedaço, mas refletem a glória e o poderio do antigo império Khmer. Um must do por aqui é a foto com seu rosto em perspectiva com as carinhas sorridentes do Portão Sul. Não se preocupe em encontrar o local certinho. Basta procurar as filas de chineses.

Terminado o rolé pelos templos de Siam Reap, tome o rumo de Phnom Penh, a capital do Camboja, tida como uma das mais bonitas do Extremo Oriente até o genocídio da década de 1970. Alugue um tuk tuk e percorra orla do rio Mekong até o palácio real, uma impressionante construção dourada que, apesar de beeeeem menor, não deixa nada a dever ao mítico Grand Palace de Bangkok. Uma curiosidade: apesar do terror que tocaram pelo país, os maoistas do Khmer Vermelho não ousaram mexer com sua majestade nem em seu reluzente cafofo. Vai entender. A cidade possui também de um dos maiores mercados populares do país, vendendo desde especiarias imperdíveis aos melhores produtos que só a melhor pirataria chinesa é capaz de oferecer. Não deixe de levar para casa léplicas de relógios lolex decorados com o rosto de Ho Chi Minh no mostrador. Custam cerca de US$ 10 e são sucesso garantido entre os amigos petralhas.

É ainda em Siam Reap que você vai encontrar o melhor da diversificada gastronomia cambojana. No calçadão da orla do Mekong, pequenas barraquinhas, parecidas com carrinhos de pipoqueiros, vendem os mais bizarros petiscos, como porções de sapos, cobras, gafanhotos ou larvas – que, acredite, podem ser meio estranhas mas tem  mesmo é gosto de camarão seco agridoce. Uma iguaria local são os espetinhos de escorpião ou tarântula, que saem por volta de US$ 5, e as maiores lulas que você já comeu na vida (eles não cortam lula em rodelas como no Brasil, mas colocam na churrasqueira o bicho inteirinho no espeto). Um molho local famoso é feito a base de…formigas! Mas nem tudo é esquisitice. O grande prato da culinária cambojana é o amok, peixe cozido em folhas de banana com leite de coco e especiarias, bem parecido com a nossa boa e velha moqueca. E os mais animadinhos podem se divertir mesmo com a vasta quantidade de restaurantes locais que oferecem em seu cardápio as cada vez mais conhecidas “happy pizzas”.

happypizza

O que é isso? Bem, antes é preciso novamente explicar: no Camboja, a legislação sobre a maconha é das mais curiosas do mundo. Fuma-se praticamente por todo os cantos, menos logicamente na porta do palácio do rei ou da embaixada americana, mesmo a substância sendo proibida. Com isso, nas pizzarias, um dos carros-chefe são as pizzas, que podem ser compradas com diferentes “quantidades de felicidade”, ou seja, duas, quatro ou seis horas de “alegria”. As mais caras ficam em torno de US$ 20. As “happy pizzas” andam tão badaladas que até gente fina do mundo da gastronomia, como o chef celebridade Anthony Bourdain, andou recentemente pelo Camboja gravando programas abordando o curioso petisco. Portanto não se espante de ver turistas com fatias de pizza gelada durante um passeio pelos templos ou na beira da piscina de seu hotel. Elas vão muito bem com mozzarella. Dizem. Bourdain detestou.

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