Holanda nos passos de Van Gogh

Holanda nos passos de Van Gogh

Holanda nos passos de Van Gogh

Vincent Van Gogh era um looser.  Um sujeito taciturno, mal-ajambrado, que fracassou em tudo o que tentou em vida.  Até mesmo o reconhecimento artístico só veio a ocorrer após sua morte. Por outro lado, seu expressivo e coloridíssimo trabalho e, até mesmo, diversos aspectos de sua biografia, inspiraram gerações de artistas e se tornaram parte importantíssima de nossa cultura visual.  Jabuticaba decidiu explorar nesta reportagem um roteiro diferente: as cidades holandesas onde viveu ou que serviram de inspiração ao artista. E a boa surpresa é que em muitos desses locais encontramos cenários preservados exatamente como eram no tempo em que foram pintados ou desenhados por ele.

Nossa primeira parada após o desembarque em Amsterdã é a cidade de Eindhoven, a “cidade luz”, capital mundial do design que ganhou este apelido por ter sido o primeiro endereço da Phillips, fundada em 1891.  Eindhoven é uma cidade animada, com muitas lojas, bares, restaurantes e cafés ao ar livre.  Visita obrigatória é o Van Abbemuseum, um dos principais museus de arte moderna e contemporânea da Europa, com uma coleção que inclui obras de Picasso, Chagall e Kandinsky, entre outros.  A cidade é a base perfeita para se explorar a província de Brabant, onde Vincent nasceu em 1853, e especialmente a pequena cidade de Neunen, onde foi instalada uma das mais interessantes homenagens ao artista: a primeira ciclovia do mundo que brilha no escuro.

Van Gogh-Roosegarde, a ciclovia que brilha no escuro

Criada pelo artista Dan Roosegaarde, que se inspirou no famoso quadro Starry Night, a ciclovia de 600 metros é formada por milhares de pedrinhas coloridas cobertas por uma pintura eletrônica especial que faz com que pisquem à noite (em entrevista à BBC, o artista disse que se inspirou nas estrelinhas florescentes que são colocadas nos tetos dos quartos de crianças). A faixa para ciclistas cruza pontos fundamentais de vida de Vincent. Foi numa das casas de camponeses nessa região que ele pintou Os Comedores de Batata, quadro que resume os mais de 250 desenhos que fez em Neunen naquela que é considerada sua primeira fase artística. A pista ainda cruza dois moinhos que foram pintados por ele: o Opwettense Watermolen – onde hoje funciona um interessante restaurante de comidas típicas – e o Collse Watermolen.

Vincent mudou-se para Neunen aos 30 anos, quando desistiu de seguir os passos de seu pai, um circunspecto pastor protestante. A casa dele, retratada no quadro A Casa Paroquial de Neunen, está lá exatamente como era na época – hoje reside no local uma pastora que de-tes-ta os turistas que insistem em invadir sua propriedade para tirar fotos. A pequena paróquia onde seu pai pregava também está preservada e é exatamente como vemos no quadro A Igreja em Neunen. A cidade é também endereço do Vincentre, um centro cultural que apresenta aspectos da vida do artista e de sua família em uma exposição interativa multimídia. O Vicentre por si só é de causar inveja aos brasileiros. Todas as pessoas que trabalham ali o fazem voluntariamente, e em sua grande parte são executivos aposentados de grandes companhias holandesas. Certeza de ótimos papos-cabeça com gente de nível excepcional.

Neunen possui alguns pequenos e charmosos hotéis como o Aubergue Vincent, localizado bem em frente à praça principal da cidadezinha. O hotel possui quartos confortáveis, cada um deles com uma decoração inspirada em um dos quadros do artista, wi-fi poderoso e um terraço com vista deliciosa. Mas a melhor opção é sentar praça em Eindhoven, a apenas 6 km de distância e com uma variedade maior de hospedagens a escolher. Dentre eles, destaca-se o Inntel Hotels Art Eindhoven, bem no centro da cidade. Parte do empreendimento ocupa uma antiga fábrica de lâmpadas da Phillips construída em 1909. Os quartos que ficam nessa area possuem pé-direito de impressionantes 4 metros.  O hotel fica a cinco minutos de caminhada da estação de trem, e próximo dos principais pontos turísticos da cidade. Entre eles, para quem curte, digamos assim, outras emoções holandesas, o Pink – um dos mais famosos e descolados coffeshops de todo o país.

Fachada da Van Gogh Huis

De Neuen, nossa próxima parada é a cidade de Breda, novo QG para descobertas vangoghianas na cidades vizinhas de Zundert e Etten-Leuer, todas facilmente exploráveis de carro.  Foi em Zundert que Vincent nasceu. A casa de sua família não existe mais, mas onde ela foi erguida existe hoje o Van Gogh Huis Museum (Museu da Casa de Van Gogh). Aqui, além de diversos itens pessoais que pertenceram à família, apresentações digitais oferecem ao visitante a oportunidade de conhecer um pouco mais de sua juventude. A casa fica a poucos metros da igreja onde seu pai pregava e onde fica o túmulo de seu irmão mais velho e homônimo, natimorto um ano antes de seu nascimento (fato que causa uma certa confusão em alguns viajantes). O museu é também o ponto de partida de inúmeros tours a pé ou de bicicleta pela cidade.

Quando não estava pintando freneticamente, Vincent escrevia. E o resultado são as centenas de cartas trocadas entre ele e seu irmão Theo, talvez uma das poucas pessoas da família que realmente procurava entendê-lo e apoiá-lo efetivamente. Graças a elas pode-se compreendê-lo como a raros artistas.  Poucos deixaram tanto material sobre seu processo criativo, sua perspectiva sobre o futuro e suas ideias. Ali os sentimentos de Vincent e a realidade que o cercava encontravam unicidade. “O que sou eu aos olhos da maioria das pessoas? Uma não entidade, ou um homem excêntrico e desagradável – alguém que não tem e nunca terá posição na vida, em suma, o menor dos menores. Muito bem, mesmo que isso fosse verdade, devo querer que o meu trabalho mostre o que vai no coração de um homem excêntrico e desse joão-ninguém”, está escrito em uma delas de 21 de julho de 1882.

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Um só coração, dos irmãos Van Gogh

Isso tudo porque, se você até hoje não se emocionou com essa história, prepare seu lenço para olhar a estátua Um Só Coração, do russo Zadkine, representando Vincent e Theo em frente à igreja onde o pai deles era ministro. Zundert reúne todas as emoções que ele era capaz de despertar. Na praça da cidade fica o primeiro monumento erguido em homenagem a ele pelo governo. Uma estranha pedra, com um sol em relevo no meio, instalada nos anos 30. Preconceitos religiosos (a cidade era de maioria católica) e sociais levaram a câmara da cidade a recusar erguer no local uma estátua, como seria mais fácil.

Etten-Leuer por sua vez foi uma cidade onde Vincent viveu brevemente, mas que marcou a ruptura definitiva com seu pai ao tomar a decisão de abraçar a vida artística. A igreja onde seu pai pregava e o edifício em frente foram fartamente retratados por ele. A poucos metros da igreja, o Heemkundig Streekmuseum é uma visita obrigatória para todos os que quiserem conhecer como era a vida nas cidades holandesas no fim do século 19.

E, naturalmente, nenhuma imersão na vida e na obra de Vincent está completa sem uma visita aos dois principais museus que reúnem seus trabalhos. Nenhum outro lugar no mundo tem tantas pinturas de Van Gogh sob o mesmo teto do que o Van Gogh Museum, em Amsterdã, de onde provavelmente partirá seu voo de volta para o Brasil. A coleção é composta de mais de 200 telas, 500 desenhos e 750 documentos escritos que, juntos,  fornecem uma visão fantástica de sua vida e obra. Para que a experiência fique completa, pegue uma hora de trem até Otterlo para conhecer o Kröller-Müller Museum, fundado por Helena Kröller-Müller, milionária alemã que, no início do século 20, foi a primeira colecionadora a reconhecer o valor dos trabalhos de Vincent, que morrera 15 anos antes. Segundo consta, ela ficou absolutamente apaixonada pelas séries de girassóis e não parou de comprar. Sua coleção reúne 88 quadros, além de 182 desenhos e uma litografia que em 1935 foram doados ao governo da Holanda. Imperdível.

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