O Egito em busca do turista perdido

O Egito em busca do turista perdido

O Egito em busca do turista perdido

Pouco mais de 20 cruzeiros percorrerão este ano as águas do Rio Nilo. Até pouco tempo eram mais de 600 as ofertas anuais de roteiros em barcos de luxo que visitavam os muitos templos localizados em suas margens. Também não há mais filas quilométricas para visitar a Grande Pirâmide e mesmo o imenso estacionamento do Vale dos Reis anda mais desértico que o areal que cerca a cidade do Cairo. Nos últimos 20 anos, o Egito viu seu turismo esfarelar. Geralmente se atribui a fuga dos viajantes à Revolução do Nilo, um dos movimentos da Primavera Árabe de 2011, que culminou com a derrubada do ditador Hosmani Mubarak. Mas na verdade a chapa por ali já vinha quente há bem mais tempo. Em 1997, 57 estrangeiros e quatro egípcios foram mortos a tiros por extremistas islâmicos quando desciam do ônibus, em frente ao templo de Hatshepsut, em Luxor. Seguiram-se outros incidentes, o mais recente em outubro do ano passado, quando um avião russo de passageiros caiu na Península do Sinai, matando 224 pessoas. Com tudo isso, o país passou a receber anualmente pouco mais de 10% dos viajantes que recepcionava no fim da década de 1990. Os preços despencaram, confirmando a velha história: o que para alguns é crise, para outros é oportunidade. A hora de visitar o Egito, acredite, é agora.

Isto porque em busca do turista perdido, o governo radicalizou a segurança nos pontos mais buliçosos. No primeiro dia da visita de nossa reportagem ao Cairo havia três tanques de guerra e uma penca de soldados posicionados em frente ao Museu Egípcio, no Centro da cidade _ que aliás fica exatamente ao lado das ruínas incendiadas da antiga sede do partido do ditador Mubarak. Tanto zelo tem toda razão de ser. Aqui fica guardado o mais importante acervo da humanidade sobre o Antigo Egito, com mais de 120 mil peças que foram e continuam sendo escavadas. Seu carro-chefe é o tesouro completo de Tutancamon, com todas as tumbas, armas, tronos, bigas e a famosíssima máscara mortuária de 45 quilos de ouro maciço. Fundado em 1858, o museu sentiu o peso do acervo e da idade. Algumas seções tem tantas antiguidades que parecem depósitos de artefatos, catalogados em curiosos papeizinhos datilografados em uma babel de idiomas. Não há ar-condicionado, o que conta muito. A boa notícia é que um novo e altamente tecnológico e refrigerado museu foi anunciado em 2002, em um novo terreno com vista para as pirâmides. A má: o orçamento já chegou a US$ 1,1 bilhão, e a inauguração, inicialmente prevista para 2015, ficou agora para 2018.

templo na ilha de Philae, às margens do Nilo

Endereço da Necrópole de Gizé onde fica o conhecido conjunto formado pelas pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, Cairo muito provavelmente  será a sua porta de entrada nesta viagem ao mundo dos faraós. Já na chegada, não deixe de reparar pela janela do avião nos terraços dos prédios sujos pela areia, que dão a sensação da cidade estar sendo engolida pelo deserto. O primeiro choque cultural é com o trânsito, que é uma loucura. Em muitos lugares os sinais são mera figuração e é difícil ver carro na rua sem  aquele “leve toque” na lataria. Em alguns bairros da periferia existem ruas inteiras de prédios de cinco, seis andares sem pintura ou reboco nas paredes externas. Parecem barracos de favelas brasileiras, mas são apartamentos de bom nível. Os nativos explicam que a ausência de acabamento é apenas uma maneira de não pagar algumas taxas da prefeitura.

Hora de visitar as pirâmides. E vê-las pela primeira vez entre esses prédios de tijolo aparente que cercam sua entrada é uma experiência inesquecível. Cobra-se entrada para o complexo, assim como em todos os demais templos e tumbas que você visitar. Por mais uma taxa extra pode-se entrar na Grande Pirâmide, mas é terminantemente proibido escalar qualquer uma delas desde os anos 50. Provavelmente nessa hora você será apresentado a pior das pragas do Egito. São vendedores de papiros, estátuas de deuses, peças de âmbar, pashminas, chapéus de palha. Com a crise, em muitos lugares você verá mais vendedores do que turistas fazendo selfies. Jamais faça contato visual com eles! Se o amigo ainda fizer a besteira extrema de perguntar o preço de qualquer coisa, assim só por curiosidade quanto custa aquela estátua do gatinho, eles farão de tudo para te convencer a levar aquilo. Vão apelar, abaixar o preço, te oferecer dois pelo preço de um, cinco pelo preço de um. Muitas vezes você acaba comprando só para se livrar do vendedor.

Porque de venda, acredite, esses egípcios entendem. Seu guia certamente o convencerá em algum momento a ir a uma loja única e especial onde ali e somente ali você encontrará o papiro genuíno, o algodão mais puro, a pashmina verdadeira ou a essência de melhor qualidade. Isso mesmo. A aromaterapia é um item importante da vasta herança deixada pelo Egito Antigo e com isso você encontrará no Cairo as mais diversas lojas especializadas em essências aromáticas que prometem desde o alívio definitivo as suas dores de garganta até mesmo emular os aromas dos produtos mais sofisticados das grandes grifes. O destaque dessas lojas é a oferta de vidrinhos coloridos para armazenar as essências. São trabalhos delicadíssimos de moldagem que dá vontade de levar todos para casa. Uma outra coqueluche entre os turistas são os papiros, cujos originais não são baratos (os ambulantes vendem um genérico feito de folha de bananeira). Hoje em dia as lojas já vendem papiros com motivos cristãos, tipo Santa Ceia, e até mesmo uma breguérrima versão cujos desenhos ficam brilhando no escuro. #evite

white_desert_field_2Sahara El Beyda, também conhecido como o White Desert

Durante a passagem pelo Cairo aproveite para fazer também um programa único em paisagens mágicas no deserto do Saara. É uma brincadeira de um dia inteiro com o carro enfiado na areia mas cujo resultado compensa o esforço. A primeira parada é no Sahara el Soda, ou o Black Desert. Formado por uma antiga erupção vulcânica, seus quase 200 quilômetros são inteiramente cobertos por pedras pretas que lhe conferem uma aparência simplesmente interplanetária. Na sequência estique até o Sahara el Beyda, ou o White Desert, que compreende quase 300 quilômetros de paisagens cobertas por pedras calcárias que vão de tons cremes até um branco quase de neve da casa do Papai Noel. Muito visitado pelos romanos, que percorriam a região atrás de cristais de rocha, esse cenário de sonho foi usado nas filmagens do videoclipe da canção “Echoes”, do grupo Klaxons. Como ninguém é de ferro pode-se quebrar o roteiro em dois dias e passar a noite no oásis de Bahareya, onde em meio a suas conquistas Alexandre, o Grande, parou para tomar a fresca _ e uns frescos _, ou mesmo encomendar ao guia uma autêntica refeição beduína em pleno deserto. Em Bahareya, há pequenos templos antigos onde é permitido ao viajante, se tiver disposição, se esgueiras entre buracos para visitar salas onde as paredes conservam as cores que foram pintadas ali há milhares de anos.

Quando fechar a programação, não deixe de fora uma parada na cidade de Edfu para conhecer o templo dedicado ao deus Horus. Enterrados sob areia e sedimentos por mais de dois mil anos, ele é, sem dúvida, um dos mais conservados e belos templos no Egito inteiro. Apesar de sua construção ser relativamente recente, por volta de 230 AC, o templo é considerado de interesse especial pelos estudiosos porque imita projetos faraônicos muito mais antigos. Aqui toda noite é exibido um bonito espetáculo de luzes que conta a história da batalha na qual Horus (o deus dos céus), venceu seu tio Seth (o deus da traição) pelo controle do Egito. O show aliás é bem mais bacana do que seu semelhante, realizado ao anoitecer nas pirâmides de Gizé, bem borocoxô e dispensável.

egypt2

Outra parada obrigatória é o Templo de Karnak, em Luxor. É na verdade um complexo de templos que espalha por uma área de cerca de 1,5 km e que também passou algumas centenas de anos soterrado até o começo de sua restauração, no século 19. Estima-se que sua construção tenha mobilizado uma enormidade 80 mil trabalhadores. Um dos pontos alto aqui é templo de Amon, onde em uma das alas guarda uma verdadeira floresta de 134 colunas de 21 metros de altura e quatro de diâmetro. No que restou do antigo teto ainda é possível ver o intenso colorido da decoração original do edifício.

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