Das montanhas aos subterrâneos da Albânia

Das montanhas aos subterrâneos da Albânia

Das montanhas aos subterrâneos da Albânia

Das montanhas nevadas do norte às praias paradisíacas do sul de seu território, a Albânia abriga uma extensa floresta de cogumelos de concreto. Trata-se de mais de 700 mil pequenos bunkers que, construídos pelo regime socialista do presidente Enver Hoxha durante a Guerra Fria, tinham como objetivo proteger o país de ataques estrangeiros (algo propagado pelo governo como iminente naquela época). Hoxha (pronuncia-se Rojá) morreu em 1985, o projeto comunista albanês desmoronou nos anos 90, mas os bunkers continuam lá, hoje abandonados e com outra função: reza a lenda, confirmada por muitos dos nativos, que a maioria dos jovens locais tem suas primeiras experiência sexuais no interior desses abrigos fortificados.

Vista da praça Skanderberg, no centro de Tirana, que reúne uma mesquita, prédios da era socialista e templos cristãos

Nada que surpreenda: o contraste acentuado entre o passado e o presente é, nos dias atuais, uma das grandes marcas da Albânia. Após passar boa parte do século 20 fechado ao mundo, o país virou, nestes últimos anos, um dos destinos turísticos mais hospitaleiros e interessantes da Europa. Tirana, a capital, é uma verdadeira aula de história: ao se colocar no centro do gramado da praça Skanderberg, no coração da cidade, o visitante tem, em seu campo de visão, obras que percorrem pelo menos 3.000 anos de civilizações. Ali estão, quase que lado a lado, o Museu da História Nacional (que exibe relíquias dos ilírios, o povo que, há cerca de três milênios, colonizou o território onde está hoje a Albânia), a linda mesquita Etham Bey (erguida no começo do século 19 pelo Império Otomano) e o Palácio da Cultura, um monolito de concreto branco erigido durante a era socialista do país (que durou entre 1946 e os anos 90) e onde existe uma casa de espetáculos.

As largas avenidas que cortam esta região foram construídas a mando de Benito Mussolini, quando a Albânia era um protetorado da Itália fascista. Uma dessas vias, constantemente lotadas de motos e carros fumacentos, passa ao lado da Fortaleza de Justianiano, estrutura da época do Império Bizantino na qual, frequentemente, são realizadas sessões de cinema. E, de lá de cima, se vê a rua George W. Bush. Isso mesmo: a capital albanesa nomeou uma de suas vias centrais em homenagem ao ex-presidente americano. Os bunkers que existem na área são apenas resquícios arqueológicos dentro de um país cada vez mais inclinado ao Ocidente: hoje, a Albânia faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, um dos principais inimigos do mundo socialista na Guerra Fria), é grande parceira comercial dos Estados Unidos e, há tempos, pleiteia uma vaga na União Europeia.

No meio das sobreposições de Tirana, existe uma cidade pulsante e extremamente bonita, recheada de avenidas arborizadas, cafés agradáveis e bares agitados, onde a animada população local curte noitadas com doses de “raki” (o fortíssimo destilado de frutas que é a bebida nacional), baforadas de naguile (herança da época do Império Otomano) e DJs cujos repertórios vão de Justin Timberlake a Elvana Gjata, uma das mais famosas cantoras de música pop da Albânia na atualidade. Boa parte deste cena noturna ocorre no sofisticado bairro de Blloku, localizado ao lado da antiga residência de Enver Hoxha e que, na era socialista, tinha suas ruas e casas acessíveis apenas a altos funcionários do Partido Comunista local.

Um dos bunkers construídos pelo presidente Enver Hoxha

Hoje, a área é frequentada por baladeiros de classes média e alta, que vão se divertir em bares como o Radio (especialista em coquetéis) e o Charl’s, com excelente música ao vivo. Trata-se de um grupo de pessoas cosmopolitas, que fala inglês e italiano com fluência e, frequentemente, está mais propenso em bater papo sobre as últimas contratações do futebol europeu do que sobre o passado de seu país. Porém, há ótimas opções para o turista ir fundo (literalmente) na controversa época do presidente Enver Hoxha. Além de construir centenas de milhares de pequenos bunkers ao redor de sua nação, Hoxha fez, em Tirana, uma fortificação para si mesmo – esta com cinco andares, nada menos que 106 quartos e uma estrutura subterrânea que seria capaz de resistir a um ataque nuclear. O local abriga hoje um museu chamado Bunk’Art, que conta a história da suposta paranoia de Hoxha, que acreditava que sua nação pudesse ser invadida tanto pelo Ocidente quanto pela União Soviética (com a qual o líder albanês rompeu relações nos anos 1960, após Moscou tentar interferir na política de seu governo).
Em determinado momento da Guerra Fria, a Albânia se tornou um dos lugares mais fechados do mundo, mantendo diplomacia com poucos países do globo, como a China (o maoísmo, com sua ênfase na coletivização do campo, chegou a ser a principal inspiração do socialismo albanês). Nas salas do bunker de Hoxha (que ele nunca chegou a usar), exposições contam como a Sirigumi (a polícia secreta local) mantinha a população local sob uma atmosfera de medo e abordam as impossibilidades de locomoção dentro deste território: nativos não podiam sair, turistas não podiam entrar. Nem todos, porém, têm apenas más lembranças dos tempos socialistas: puxe papo com alguns dos amigáveis velhinhos que frequentam os bares ao redor da rua Durrësit, em uma área mais pobre do centro de Tirana, e você verá que muitos deles têm uma certa nostalgia do regime de Enver Hoxha, uma época em que, segundo eles, a liberdade era pouca, mas havia mais acesso a educação, saúde, moradia e a uma vida de baixo custo.

O norte da Albânia abriga uma das mais belas regiões montanhosas da Europa

Além do instigante ambiente urbano de Tirana, a Albânia oferece um dos passeios na natureza mais lindos da Europa: trata-se da trilha que liga as vilas de Valbone e Theth, localizados nas montanhas do norte do país (chamadas também de Alpes albaneses). O roteiro começa na cidade de Shkoder, de onde saem, diariamente, táxis coletivos rumo ao lago Koman. De lá, os viajantes tomam balsas que cruzam paisagens montanhosas paradisíacas, com as bordas pontuadas por pitorescos vilarejos e cumes pontiagudos que quase somem entre as nuvens. Depois de desembarcar e chegar a Valbone, os turistas começam uma caminhada de 12 quilômetros entre as montanhas cinzentas da região, que ultrapassam os 3.000 metros de altura e sob as quais se espalham densos bosques e pacatos vilarejos, onde é possível admirar a vida rural albanesa (com seus pastores de ovelhas e plantações de frutas) em sua mais pura forma.

Mirantes naturais oferecem vista para enormes rios correndo sob as montanhas nevadas e, aqui e ali, aparecem igrejinhas de pedra com centenas de anos. No passado, muitos dos habitantes desta região seguiam o “Kanun”, um compilado de leis feitas para ditar os costumes da população local. Um dos mandamentos mais polêmicos é a “vingança de sangue”, que ordena o seguinte: se alguém mata um membro de sua família ou um hóspede de sua casa, você deve acabar com a vida de alguém da família do assassino. Isso, logicamente, gerava um ciclo interminável de vendetas entre comunidades da área, o que fez a prática ser proibida pelo regime de Enver Hoxha. Porém, relatos dão conta de que as vinganças de sangue ainda ocorrem na área. O turista, entretanto, deve ficar despreocupado. A hospitalidade é o que dita a relação dos nativos com os forasteiros e, na chegada ao ponto final da trilha, a vila de Theth, os viajantes serão extremamente bem recebidos em uma das muitas pousadas baratas da área. Prepara o estômago, pois doses de raki serão entregues na sua mão.

Vista aérea de Ksamil

Sentir-se em uma praia grega, mas sem ter que arcar com os custos do euro. Este é o grande atrativo do litoral sul da Albânia, que compartilha o mar Jônico com a Grécia, abriga orlas paradisíacas e areias cercadas por imponentes montanhas. Na região, o turista encontra pequenos balneários como Himare, Dhërmi e Saranda, que oferecem boa infraestrutura hoteleira e acesso a praias como Ksamil (com águas cristalinas e pequenas ilhas aonde se pode chegar a nado) e Gjipe, protegida por um cânion e, na baixa temporada, com quase nenhum ser humano à vista. Uma população de etnia grega é numerosa na área, o que garante excelentes restaurantes de peixes e frutos do mar, tudo regado a muito azeite de alta qualidade. E a 60 quilômetros de Saranda se localiza Girokastra, a mais famosa cidade histórica da Albânia. Com apenas 30 mil habitantes, o lugar exibe um romântico centro histórico recheado de casinhas de pedra centenárias, em uma área considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

 

SERVIÇO

Turistas brasileiros não precisam de visto para estadias de até 90 dias na Albânia. Muitos viajantes entram no país por terra, vindos da Grécia e ingressando em território albanês através das praias do sul do país ou provenientes de Montenegro, em viagens que passam primeiramente por Shkoder (onde começam os roteiros pelas montanhas do norte da Albânia). Ambas as vias possuem estradas bem pavimentadas.

A moeda albanesa é o lek e, mesmo com o real desvalorizado, o custo de vida no país é baixo para brasileiros. Em Tirana, por exemplo, é possível encontrar bons quartos de hotel por R$ 60 e almoçar por menos de R$ 20.

Se for fazer a trilha entre Valbona e Theth (e nós recomendamos que você percorra este lindo roteiro), verifique a previsão do tempo para a região com antecedência: a chuva pode estregar completamente o passeio.

E reserve pelo menos cinco dias para relaxar nas praias do sul do país. Himare é um dos melhores lugares para usar de base para explorar a área.

 

 

Antes da viagem

 

Um livro para ler: “Abril Despedaçado”, do celebrado escritor albanês Ismail Kadaré, que conta a história de um jovem das montanhas do norte que, sob as leis do “Kanun”, precisa cometer um assassinato para vingar a morte de seu irmão. A obra inspirou o filme brasileiro homônimo, dirigido em 2001 por Walter Salles, estrelado por Rodrigo Santoro e ambientado no Nordeste.

Um filme para ver: “Slogans”, do diretor albanês Gjergj Xhuvani, que dá um relato da vida na Albânia durante a era Enver Hoxha.

Um artista para conhecer: Onufri, um genial pintor albanês de ícones religiosos do século 16.

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