Bom dia, Vietnã!

Bom dia, Vietnã!

Bom dia, Vietnã!

Dizem que os norte-americanos tratam a Guerra do Vietnã de uma maneira meio parecida com que os gaúchos lidam com a dos Farrapos. Nos dois casos eles perderam. Fingem que empataram. Mas fazem tanto barulho que parece até que venceram. Hollywood tentou virar o jogo no tapetão tantas vezes que acabou criando um efeito contrário: uma mística e uma imensa curiosidade sobre o Sudeste Asiático, um mundo completamente distinto do nosso em cultura, gastronomia, perspectiva de vida, o que por tudo isso talvez explique a vitória daquele povo miúdo, pobre e subdesenvolvido sobre o mais poderoso exército do planeta. Passados quase 40 anos desde que o último helicóptero Huey fugiu dos telhados de Saigon, Vietnã e Camboja se reinventam economicamente, abrindo seus mercados para o Ocidente e, principalmente, apostando no turismo, graças a uma mistura única, espécie de versão mais raiz e radical da Tailândia, de templos fascinantes, maravilhas da natureza como a baía de Ha Long, realismo socialista da pesada, chapéus cônicos e um clima de cenário de Apocalipse Now.

Varanda do Hotel Majestic, antigo ponto de encontro dos correspondentes durante a Guerra do Vietnå

 

O ponto de encontro inicial dos viajantes que pretendem desbravar o Vietnã é a cidade de Hanoi, uma das mais antigas e bonitas capitais do Sudeste Asiático. Fundada em 1010, é hoje uma mistura arquitetônica de bairros de centenas de anos, como a zona comercial conhecida como Bairro Antigo, e luxuosos prédios coloniais franceses como a Ópera de Hanoi. Se você acha que cidades como São Paulo hoje possuem um número exagerado de motocicletas nas ruas, espere até chegar aqui. No Vietnã existe uma moto para cada dois habitantes – há modelos chineses no mercado local que custam menos de US$ 200 – e elas ziguezagueam por todos os lados como se a legislação de trânsito não existisse. Elas trafegam nas duas mãos, sobem calçadas. Nunca o conselho da vovó de olhar sempre os dois lados valeu tanto. Os vietnamitas possuem uma capacidade única de usar suas motos como veículos de carga, por isso, não se espante ao ver famílias inteiras trepadas numa 125 cc. Eles carregam tanta tralha que as vezes é até difícil enxergar o piloto.

Circular pelas ruas caóticas do Bairro Antigo de Hanoi é se deparar com uma das primeiras surpresas da viagem: os preços dos produtos no Vietnã, que são tão baixos que você vai encher a mala de tralhas antes mesmo que perceba. No Bairro Antigo e demais mercados do país é imensa a oferta artigos de palha, artesanatos com laca, quimonos de seda, estátuas, camisetas por 1 dólar e uma das mais impressionantes ofertas de produtos chineses que você possa imaginar. Uma garrafa de cerveja sai mais barato do que uma de água. Muitas das mercadorias são vendidas na porta das residências dos nativos, impressionantes casas-corredores espremidas umas contra as outras e de não mais de 2 metros de largura. Em Hanoi, não deixe de visitar o Templo da Literatura e o mausoléu de Ho Chi Minh, o grande líder do Vietnã comunista, cujo corpo está embalsamado e morbidamente exposto para visitação pública. Quem já quiser começar a sentir o clima da guerra pode ir até a prisão Ha Loi, conhecida nos tempos da colonização francesa como “Maison Centrale”, porém rebatizada pelos pilotos americanos abatidos que amargaram pena ali como “Hanoi Hilton”. O acervo conta com um conjunto horripilante de instrumentos de tortura e até uma guilhotina.

Vista do bar do Sofitel Metropole Hotel, um dos points mais badalados de Hanoi

 

A cidade é endereço de um dos mais prestigiados hotéis de toda a antiga Indochina francesa, o Sofitel Metropole Hotel. Inaugurado em 1901, com estilo colonial, muito ferro batido e decoração art nouveau, hospedou nomes como Charlie Chaplin, Sommerset Maugham e a cantora Joan Baez, que gravou da janela de seu quarto os sons das sirenes e explosões de um bombardeio sobre a cidade posteriormente usados em um de seus discos. Os hóspedes podem fazer uma visita ao bunker do hotel, 7 metros abaixo do solo, que escondeu Baez entre outros VIPs da época quando a chapa esquentava. O hotel abriga o Spices Garden, um dos mais sofisticados restaurantes vietnamitas de Hanoi, local ideal para você começar a se aclimatar com a exótica comida local. Comece com um prato de pho, a mais popular iguaria local. É como se fosse uma tigela de sopa de macarrão de arroz, num caldo de carne extremamente quente, com pedaços de carne, frango ou frutos do mar, acompanhado de cebolinha, louro, manjericão, limão e algumas ervas locais. Na primeira colherada você vai entender por que tantos turistas voltam pra casa com camisetas “I love pho”.

Good morning, Vietnam! É hora de acordar cedo e pegar estrada até Ha Long Bay. São três horas e meia de chão por campos de arroz e barraquinhas de beira de estrada que vendem… churrasquinho de cachorro! Isso mesmo. No Vietnã, 1 quilo de carne de porco custa cerca de US$ 5 dólares, contra US$ 15 de um quilo de carne de cachorro. Mas vamos em frente que Ha Long Bay é uma visão que vai fazer você esquecer essas esquisitices. Patrimônio da Humanidade, a baía se estende por uma região de 1,5 mil quilômetros, pontilhada por mais de 2 mil ilhotas. O resultado é um verdadeiro labirinto de rochas bizarras, cavernas e pequenas praias. Diversas companhias oferecem a oportunidade de passar a noite na baía em um luxuoso navio de madeira típico. O amanhecer em Ha Long é uma daquelas experiências mágicas que vale a pena viver. Pode-se passar dias explorando as pedras em caiaques sem jamais conhecer todas as belezas do local, como a gigantesca Hang Su Sot, a “caverna da admiração”, famosa por sua pedra imensa em formato de falo, iluminada por uma luz natural cor-de-rosa que é venerada como um símbolo de fertilidade pelos moradores.

A magia de Ha Long Bay pode explodir cabeças, mas a viagem ainda está só começando. Ainda há uma joia da antiga Indochina a se percorrer: a antiga Saigon, rebatizada após a Guerra do Vietã como Ho Chi Minh – embora todo mundo a chame pelo nome antigo! A antiga capital do Vietnã do Sul mantém o charme vietnamita, mas é logicamente muito mais ocidentalizada do que Hanoi. Os hotéis são mais chiques, o trânsito… bem, é um zona, mas há mais restaurante com cara de restaurante e alguns pontos míticos da Guerra, como a Embaixada Americana – de onde fugiram os últimos soldados pendurados em helicópteros, ou o belíssimo Palácio Presidencial. Um programa indispensável em Saigon é subir ao terraço do Rex Hotel, que abriga o antigo bar ponto de encontro dos correspondentes de guerra. O mojito com gengibre que se serve aqui era a bebida favorita dos jornalistas, e sai pela bobagem de US$ 18 a experiência.

E se tudo o que você viu até agora não foi suficiente e ainda está disposto a uma imersão mais profunda no que foi a guerra do Vietnã, respire fundo e encare uma hora de carro de Saigon até o complexo de Cu Chi. Como se sabe, uma das principais estratégias responsáveis pelo sucesso dos vietcongues contra os americanos foi a rede que centenas de quilômetros de túneis subterrâneos onde se abrigavam e por onde fugiam as tropas de Ho Chi Minh. A rede é de uma engenhosidade impressionante, com até seis níveis sob o solo, incluindo salas para reuniões, alojamentos, cozinhas, sistema de captação de água e de escoamento de fumaça. Eles eram construídos de forma que um soldado americano médio conseguisse entrar até um certo nível, mas no fim acabava entalado.

No Complexo de Túneis de Cu Chi você recebe uma verdadeira aula de estratégia de guerrilha vietcongue. Vê como eram feitas as amardilhas nas selvas, a lógica dos túneis e pode até atrever-se a percorrer alguns deles. São oferecidas quatro opções aos turistas: túneis de 20, 40, 60 e 80 metros de extensão. A reportagem de Jabuticaba, valente que só ela, atravessou o de 80 metros. Foi uma experiência única e que jamais será repetida. Você entra no túnel agachado, e a medida que vai avançando, ele vai se estreitando até chegar a cerca de 50 centímetros no trecho final. Em parte do caminho, a única luz é aquela do seu iPhone. E se lá em cima a temperatura média oscila na casa dos 40 graus, dá pra imaginar o quanto os túneis são abafados. Bem, depois desse perrengue, há uma brincadeira bem mais divertida. Você pode atirar com um das armas utilizadas durante o período da guerra. Há pistolas, fuzis M-16 (americanos) ou AK-47 (vietcongues) e tcham-tcham-tcham-tcham, metralhadoras 60 iguaizinhas àquelas usadas nos helicópteros. Custa US$ 1 dólar a munição. Mas seria injusto pensar no Vietnã apenas pelo seu passado de guerras. O país guarda muito mais segredos, que merecem ser descobertos pelos aventureiros. Dos inúmeros templos budistas que se espalham de norte a sul em meio a plantações de arroz e pastos com búfalos. Caótica e pacífica, mítica e com um pé na modernidade, a região é também o motor econômico desse quinhão da Ásia. E uma viagem que, sem dúvida, ficará gravada na memória do turista para sempre.

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