Deus e o diabo na terra do spa

Deus e o diabo na terra do spa

Deus e o diabo na terra do spa

Você certamente já ouviu essa conversa antes. O sujeito volta de uma viagem um pouquinho diferente e, para impressionar os amigos, e em especial as amigas, encaixa a frase, acompanhada sempre por aquela indefectível cara de conteúdo dos antigos comerciais do Estadão: “É uma terra de contrastes”. Aplausos. Essa quase hashtag pode realmente ser aplicada em inúmeras situações. Mas poucas, muito poucas, são tão verdadeiras quando se está falando de Bangcoc. Um lugar onde a cultura de chineses, indianos, árabes e europeus trocou figurinhas como em raríssimos outros pontos do planeta, resultando em uma explosão de cores, tons, texturas e detalhes de explodir a cabeça da mais ranzinza das criaturas viventes. A capital da Tailândia é onde o sagrado e o profano se encontram. Uma combinação de templos maravilhosos,  spas incríveis e uma vida noturna que não tem comparação.

 

Cansado de visitar as igrejas medievais muitas vezes tristes e escuras da Europa? Então espere para conhecer o Grand Palace de Bangcoc, que começou a ser construído em 1782 para servir de residência oficial a família real. Hoje, ele ocupa uma área de mais de 200 mil metros quadrados de templos, palácios e prédios administrativos onde se realizam algumas das principais cerimônias do país. Um destes templos é o Wat Phra Kaew, o templo do famoso Buda de Esmeralda (que na verdade é de jade, mas deixa pra lá) e o mais importante dos 18 mil templos tailandeses. Talhado em uma única pedra em 43 a.C., a estátua foi consagrada pelo rei Rama I como protetora do país. Nenhum ser humano pode jamais tocar nessa figura, apenas o rei, que o visita para trocar sua roupa três vezes por ano, de acordo com as estações.

 

Um pouco mais ao sul, aproveite para visitar também Wat Pho, o Templo do Buda Deitado, localizado em uma das mais antigas escolas de medicina do mundo. Em seu jardim há uma bela figueira, supostamente filhote direto da árvore embaixo da qual o príncipe Siddartha Gautama encontrou a iluminação. O Buda Deitado é uma das maiores imagens religiosas existentes no mundo. Tem 15 metros de altura e 43 de comprimento, todo folheado a ouro. A ideia é que, ao contemplá-lo, os homens tenham a sensação de quanto são pequenos quando comparados a uma escala espiritual.

 

Outro templo imperdível é o Wat Traimit, o Templo do Buda de Ouro, onde repousa uma estátua de 3 metros de altura e nada menos que 5,5 toneladas de ouro maciço. Ela teria sido fundida entre os séculos 13 e 14 e foi totalmente coberta por uma espessa camada de estuque durante a invasão birmanesa no século 18 para não cair em mão inimigas. Em 1801, quando Bangcoc tornou-se a capital, o rei mandou reunir na cidade diversas estátuas que estavam em templos  que haviam sido destruídos em diferentes guerras, e assim o Buda de Ouro foi parar na cidade. Somente em 1954, quando estava sendo transportada para o templo onde está hoje, uma das cordas usadas para erguê-la se rompeu e, quando a estátua bateu no chão e um pedaço da cobertura quebrou, revelando a  preciosidade esquecida há mais de 200 anos.

Para chegar até Bangcoc do Brasil, uma das melhores opções são os voos oferecidos pela Etihad, com conexão em Abu Dhabi. É uma viagem longa, de quase 22 horas, mas a companhia árabe criada em 2003 faz valer a pena. A filosofia da Etihad é oferecer ao passageiro o que existe de melhor na hospitalidade árabe, como atenção, calor humano e generosidade. A classe executiva oferece cardápios caprichados, assentos reclináveis horizontalmente, telas de TV individuais de 15 polegadas e a possibilidade de você fazer suas refeições em qualquer horário. Já a primeira, além de um chef exclusivo, transformou os assentos em suítes exclusivas com porta e tudo. Você se sente como se estivesse na cabine de um trem de luxo. Por essas e outras a voadora já recebeu diversos prêmios como marca premium entre companhias áreas do mundo.

 

Se durante o dia Bangcoc oferece tantas maravilhas para passeios, à noite o bicho pega. Então prepare-se, porque daqui em diante a coisa vai esquentar. Mesmo sendo jabuticaba um site dedicado à família brasileira, temos o dever jornalístico de relatar a vida como ela é. Vamos lá? Nós avisamos. Para começo de conversa, diferentemente de Amsterdã, Bangcoc não tem um, nem dois, mas três “red light districts”: X, Y e Z. Isso mesmo. Esses bairros na verdade lembram mais a região dos inferninhos de Copacabana, no Rio de Janeiro, ou alguns pontos cabulosos do Centro de São Paulo, do que propriamente sua inspiração holandesa. Até existem clubes que exibem mulheres dançando na vitrine. Mas a pegada ali mesmo é mais para o esquema de barzinhos com boazudas requebrando sobre um queijo. A oferta é absurda. Elas chegam a ir atrás dos clientes por quarteirões, e muitas delas fazem um cidadão de bem pensar na velha máxima que um homem só conhece a verdadeira felicidade quando se casa. O problema que aí já é tarde demais.

 

“No money, no honey”, é a máxima aqui. Os programas com as meninas são incrivelmente baratos para os padrões ocidentais. Uma hora com direito a tudo que a sua mente pervertida possa conceber, com as mais extraordinárias das meninas do pedaço, costuma ficar em torno dos 3 mil bahts (cerca de US$ 100). Rapazes musculosos, se estiver mais ao gosto do freguês, cobram a mesma caixinha. É preciso negociar tudo com antecedência para não ter surpresas desagradáveis. Os guias locais, por exemplo, recomendam expressamente não entrar nunca nos andares superiores desses estabelecimentos, e o tempo todo você receberá ofertas para subir até esses supostos paraísos. Corram! Se quiser uma opção mais em conta, Bangcoc é famosa pelos “ladyboys”, como são chamados os travestis. Tailandeses têm uma relação absolutamente única de naturalidade com o transexualismo, e não à toa o país é um dos destinos mais procurados por aqueles que querem fazer cirurgias de troca de sexo. Os “ladyboys” cobram, em média, a metade do cachê das meninas, mas ali você poderá encontrar alguns tão bonitos, mas tão bonitos que só vai descobrir que a moça veio com brinde quando já estiver em um momento mais íntimo. Bem, tem gente que curte. Como dizia um velho boêmio carioca, travestis são como torresmo. Muita gente gosta, mas poucos admitem.

 

Ainda nessa linha, um programa divertidíssimo são os shows de pingue-pongue. Não, não estamos falando de esporte. É um show com meninas nuas que colocam bolinhas em suas partes íntimas e depois as atiram no público usando apenas a força da musculatura vaginal. E bolinhas não são as únicas coisas que elas manipulam. Algumas colocam cigarros ali e aparentemente fumam, porque sai até fumacinha. Outras abrem garrafas e algumas conseguem acertar alvos com dardos. Fotos e vídeos são absolutamente proibidos. É bastante degradante, mas tem seu público. De novo: muito cuidado aonde for e negocie tudo antes. Diversos sites dão dicas e explicações dos truques mais comuns usados nessas boates para fisgar babões incautos. Nos “red ligh districts” você pode ainda fazer um tipo muito específico de massagem conhecido como “hanky panky”. Nada mais nada menos do que as famosíssimas e sensacionais massagens tailandesas, absolutamente relaxantes, mas que no caso da “hanky panky” terminam em um final feliz. Deu para entender, né?

 

Mas massagens tailandesas não são todas “hanky panky”, muito pelo contrário. Para muitos nativos essa categoria de massagem teria mesmo era ajudado a criar uma imagem equivocada do que efetivamente significa essa técnica – oficialmente criada por Jivaka Kumar Bhacca, médico indiano contemporâneo do Buda (século 4 a.c.), que teria recebido os primeiros ensinamentos do próprio deus Shiva. Logicamente não faltam estabelecimentos que proporcionam a verdadeira “thai massage”, sendo que um dos melhores é o requintado The Oasis Spa, criado pela dupla Toby Allen e Ployphicha com o nada modesto objetivo de se tornar o spa dos sonhos de qualquer um. O tratamento top ali é o “The Voyage of Golden Lanna”, onde 20 dedos perfeitamente sincronizados com músicas especiais levam o paciente a uma jornada de 90 minutos que termina perto do Nirvana. Cada sala tem uma vibe especial, sejam  cascatas, pontes de madeira, chuveiros externos ou jardins maravilhosos.

 

O viajante pode matar (ops, matar não, que isso não é de Buda), resolver dois problemas de uma vez hospedando-se num dos diversos e incríveis hotéis da cidade que contam com serviços de spa de altíssima categoria. As principais bandeiras do mundo estão fincadas ali, mas uma das melhores opções da cidade continua sendo o Four Seasons Bangkok, antiga joia da tradição hoteleira da terra dos sorrisos que foi totalmente modernizado em 2003. Além do luxo e sofisticação, o hotel conta com uma das melhores localizações do pedaço: próximo de shoppings, “redlight districts”, 40 minutos do aeroporto, na frente de uma estação do BTS (o sensacional monotrilho que leva para todos os cantos) e fica exatamente ao lado do Royal Bangkok Sports Club, que conta com quadras de esportes de diversas modalidades, pista de corrida de cavalos e um campo de golfe. O Four Seasons é também o endereço do Spice Market, simplesmente o melhor (senão “O” melhor) restaurante que serve a exótica e apimentadíssima culinária local.

 

Para os mais radicais e dispostos também a voltar pra casa com um buda dourado na mala para chamar de seu, o programa é descolar um carro e correr para um dos dez mercados flutuantes que ficam nas redondezas de Bangcoc.  Todos ficam em média a uma hora da cidade, e o mais famoso deles é o Damnoen Saduak. Nesses mercados pode-se provar comida tailandesa de raiz, comprar as exóticas e coloridas frutas locais, artesanato, e uma mania de todo ocidental que pisa por lá: camisetas com motivos relacionados a marcas locais que além de baratérrimas fazem o maior sucesso mundo afora. Outra atração local que vale a pena visitar, principalmente se você tem resquícios de memória do filme Anna e o Rei, com Jodie Foster e Chow Yun-Fat no papel do rei Rama IV, é o Siam Niramit Show –  simplesmente a coisa mais brega e divertida que você irá ver na vida. Trata-se de um espetáculo com 150 atores, elefantes, mulheres voando sobre a plateia e os mais recentes e incríveis efeitos especiais estilo Disney que contam a história do antigo Reino do Sião. Não deixe de levantar para ouvir o hino nacional antes do show começar e nem pense em fazer gracinhas diante das imagens de sua majestade ao estilo do quadro puxa-saco A semana do presidente que Silvio Santos exibia no SBT. O recente golpe de estado deixou turistas do mundo inteiro cabreiros com a ideia de viajar para o belíssimo país asiático. Mas nessas horas é bom não esquecer do famoso ensinamento do príncipe de Lampedusa: as coisas estão sempre mudando para permanecer como sempre foram. Em Bangcoc você vai entender o quanto isso é pra valer.

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