As incríveis igrejas da Etiópia

As incríveis igrejas da Etiópia

As incríveis igrejas da Etiópia

O consagrado fotografo e jornalista Carlos Hansen faz sua estréia como colaborador de Jabuticaba compartilhando com nossos leitores sua experiência nas fantásticas igrejas de Lalibela, na Etiópia. Confira abaixo:

Do pequeno aeroporto até a cidade são uns 30 minutos passando por plantações de teff _  um pequeno grão cultivado na Etiópia considerado estrela entre os “superalimentos” _, rebanhos de bois e de cabras e mais plantações de teff.  A cada curva da serra que subíamos, aquela idéia inicial de um país culturalmente fechado, muitas vezes perigoso e miserável foi se desfazendo, graças a paisagens grandiosas e a simpatia de um povo gentil e acolhedor, que se traduz em constantes sorrisos e acenos aos viajantes durante o trajeto.  As casas simples que vimos ao longo da estrada começam a se adensar e quando  passamos por uma escola com muitas crianças em volta o guia avisa que estamos entrando em Lalibela.  

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Peregrinos participam de missa no interior das igrejas de Lalibela

“Por que a Etiópia?”, era uma pergunta comum de amigos e parentes, a maioria influenciada pelas recordações de imagens da Grande Carestia dos anos 80, quando mais de um milhão de etíopes morreram de fome. A tragédia ganhou páginas de jornais e revistas do mundo todo, gerando uma onda de  indignação e reações, entre uma das mais conhecidas, o megashow Live Aid, organizado por Bob Geldof em 1985 para arrecadar dinheiro para os famintos do país e foi visto por 1,5 bilhão de pessoas. Mas meu interesse pela Etiópia era anterior. Fruto da leitura de uma edição inesquecível da National Geographic Magazine então dedicada à declaração, como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, da cidade de Lalibela e suas 11 igrejas monolíticas esculpidas em rocha no século XII.

Viajantes se impressionam com a grandiosidade dos templos

Localizada no Nordeste Africano, na região conhecida como “Chifre da Africa”, a Etiópia é um país de história riquíssima.  Jamais foi colonizado por nenhum país europeu, desenvolveu um cristianismo absolutamente particular em meio a um monte de vizinhos árabes,  e até 1974 era uma monarquia feudal conhecida como Abissínia, ou Império Etíope. Sua linhagem real dizia-se descendente direta do Rei Salomão. Na década de 70 um golpe militar depôs o imperador Haile Selassié, aquele mesmo que Bob Marley e os rastafáris acreditavam ser uma reencarnação do Messias: “o Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, o Leão Conquistador da Tribo de Judá”.  Nos 20 anos seguintes a Etiópia viveu períodos de seca e fome em meio a guerra civil. Hoje, politicamente mais estável e economicamente fortalecido graças a pesados investimentos chineses, o país mira o futuro e o dinheiro dos viajantes internacionais.

Reza a lenda que no século XII, o imperador Gebre Mesqel Lalibela ordenou o início da construção das igrejas na antiga cidade de Hora. A idéia era fazer do local um centro de peregrinação para  cristãos de todo o mundo enquanto Jerusalém estivesse ocupada pelos muçulmanos.  A construção dos 11 templos demorou 24 anos, mas existem teorias de que algumas igrejas teriam sido construídas bem antes do Rei Lalibela. O resultado é impressionante e único.  Os blocos gigantes de rochas eram separados do leito rochoso e depois o formato externo do prédio era esculpido e o bloco cavado por dentro para a criação dos salões, arcos e colunas decorativas.

A colaboração de engenheiros e artesãos egípcios é constatada pelos tipos de adornos e detalhes arquitetônicos.  Os etíopes dizem que anjos vinham a noite para ajudar no trabalho e, para quem gosta de teorias conspiratórias, registros sobre o envolvimento dos Cavaleiros Templários na construção dá assunto para muita discussão. O motivo para as igrejas serem construídas debaixo da terra seria para que elas, assim, não pudessem ser vistas à distância pelos inimigos.

Detalhes do interior das igrejas sugerem a participação de artesãos egípcios

Localizada numa região montanhosa a 640km (1 hora de vôo) ao norte de Adis Ababa, a cidade sagrada de Lalibela é um monumento vivo.  As 11 igrejas estão em pleno funcionamento com missas e rituais diárias e centro de peregrinação em várias épocas do ano. Elas permanecem abertas das 9h00 às 13h00 horas, e depois das 14h00 às 17h00 horas.  Para entrar em cada templo (sim, todos podem ser visitados), é preciso tirar os sapatos e as mulheres devem cobrir a cabeça com véus ou echarpes. Para visitar as igrejas é cobrada uma taxa de US$50,00 válida por 5 dias. Não esqueça de levar o passaporte para as checagens de segurança.

As igrejas estão reunidas  em três grupos e podem ser visitadas em um dia, a contratação de um guia não é obrigatória mas enriquece demais a visita pois são muitos detalhes interessantes  e algumas surpresas bacanas como o túnel de penitentes  por onde os turistas e peregrinos atravessam por 600 metros de escuro absoluto e a saída do penitente purificado por um buraco no teto simbolizando o renascimento. Ao longo do percurso vai se batendo braço, joelho, cabeça, nas protuberâncias e irregularidades do túnel, quanto mais pancada mais pecados ficam pelo caminho. Eu saí com uma pequena luxação no joelho mas vi gente com a testa e os braços roxos.

Ao norte do Rio Jordão ficam Biete Medhani Alem (Casa do Salvador do Mundo), Biete Marian (Casa de Maria), Biete Meskel (Casa da Cruz de Cristo), Biete Denagel (Casa das Virgens), Biete Gólgota Mikael (Casa do Golgotha Mikael). Ao sul do rio estão Biete Amanuel (Casa de Emmanuel), Biete Qeddus Mercoreus (Casa de São Mercoreos), Biete Abba Libanos (Casa do Abade Libanos), Biete Gabriel Raphael (Casa de Gabriel Rafael), e Biete Lehem (Casa do pão sagrado). Isolada das outras igrejas está talvez a mais conhecida delas Biete Ghiorgis (Casa de São Jorge)  com seu característico formato de cruz.

Gastronomia na Etiópia é um capítulo à parte. A comida na Etiópia não é assim das mais variadas nem muito refinada, mas tem sabores exóticos e maravilhosos. O prato ícone do país á injera, uma espécie de panqueca esponjosa feita de teff, o cereal que está plantado por toda parte e é considerado um superalimento pois não tem gluten e é riquíssimo em ferro e outros minerais. A injera é comida em todas as refeições mas os acompanhamentos são muito variados e podem ser vegetais cozidos, carne de cordeiro ou de vaca cortada em tiras ou cubos ensopada, grelhada ou frita com manteiga. Os temperos usados são o Bérbere, de origem do norte da áfrica mas muito usado na Etiópia, o Korerima que lembra muito o coentro e vai em quase todos os ensopados e a Mitmita que é muito apimentado e lembra muito alguns tipos de curry pois também é obtido com a mistura de várias pimentas e especiarias. Tradicionalmente não se usa talheres para comer, um pedaço de injera é usado para pegar o legume ou a carne e levá lo a boca. O solo de grande parte do país é muito fértil e a produção vegetal é quase toda orgânica. A religião ortodoxa tewahido obrigada a população a comer só vegetais em algumas épocas do ano e isso faz com que todos os restaurantes tenham opções vegetarianas durante todo o ano e o país é vegan friendly. O café, que é de origem etíope, é a maior fonte de divisas de exportação do país e é muito consumido pela população que tem um ritual próprio para servir e é parte importante da socialização. Em Addis existem muitas cafeterias em estilo mais contemporâneo e um cafezinho no histórico Tomoca do centro da cidade é um “must do”. Tente tomar e comprar para trazer os cafés selvagens, essa é a espécie que originou o Arábica e são colhidos nas florestas do sul do país, apesar de estar em extinção não é difícil achar. Os chás que os ingleses trouxeram também são excelentes e para quem aprecia vale trazer alguns pacotes. Em Addis também existem várias lojas que servem um suco em camadas que apesar das frutas serem conhecidas (mamão, abacate, manga,limão) o resultado são sabor e textura “exóticas”. A Etiópia tem hoje o maior rebanho de bois e cabras da África, a carne e o couro são exportados principalmente para a China. A carne é muito boa e a bovina é muito consumida crua, é não é em fatias finas mas em cubos, acompanhada de molhos muito picantes e injera. A carne de cabritos e ovelhas normalmente é ensopa ou grelhada com legumes e comido claro que acompanhado de injera.

Em Lalibela a melhor opção gastronômica é o Ben Abeba, um restaurante de aspecto extra terrestre no topo de um penhasco com visão apoteótica do por do sol. A arquitetura única é um projeto de arquitetos locais e evoca as árvores da região. O ambiente é muito amplo e para onde se olha tem um visual acachapante. A sociedade entre uma escocesa aposentada e um pastor de ovelhas que fez curso de panificação e administra com muita simpatia e capricho resultam em um menu simples mas de sabores intensos e que agrada desde o mais chato (hamburguers muito bem feitos e massas que não provei) até os mais aventureiros com a injera e seus acompanhamentos variados e alguns muito picantes.

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